Aconcágua via 360°

Relato dos 15 dias vividos nesta incrível aventura rumo ao teto das Américas, o Cerro Aconcágua, com 6.962m de altitude

O Cerro Aconcágua (6.962m) visto por Valle de Vacas

Tão perto, mas tão longe.... Nunca senti tão forte esta expressão.


Quando entramos no parque, dia 02 de fevereiro de 2011, sentia-me bastante confiante, não apenas pela determinação ou força física, mas também pelos companheiros. Todos bem entrosados, fortes e principalmente, divertidos! Afinal, subir uma alta montanha não tem a ver apenas com força física e aclimatação, mas também – e principalmente – com o psicológico. E com um grupo assim, o psicológico vai lá em cima!


Em três dias de caminhada puxada, com pouco mais de 40 quilômetros de extensão e pouco menos de 2.000 metros de desnível, chegamos ao nosso campo base, em Plaza Argentina. Sim, fomos por uma rota distinta da chamada “Normal”. Ou seja, pegamos um caminho mais pesado: na rota normal, anda-se em média, até o cume, 40 quilômetros. Na rota que selecionamos, anda-se em média, 60 quilômetros.


Nosso caminho até o Campo Base foi iniciado em Punta de Vacas, à 2.350m de altitude, passando por Pampa de Leñas (2.950m) e Casa de Piedra (3.250m), onde passávamos a noite. No campo base fizemos nossa aclimatação inicial: Um dia de descanso, um porteio de comida ao Campo I (4.900m), com retorno ao Campo Base e mais um dia de descanso.

Grupo completo a caminho de plaza Argentina, no terceiro dia de excursão

Infelizmente, no dia da subida de aclimatação ao Campo I, nossos amigos Carlos dos Anjos, Marcelo Crux e Dedé sentiram a altitude mais do que o normal e tiveram que descer do meio do caminho. Nossas três primeiras baixas... Finalmente, no dia 8 de fevereiro, fizemos nossa subida definitiva ao Campo I. E desta vez, a Nasaré que passara por complicações médicas na noite anterior, também necessitou abandonar a expedição. Neste dia, as quatro “baixas” retornaram, enquanto os seis remanescentes prosseguiam.


Subida tranqüila no início, mas que vai complicando aos poucos. Alguns rios no caminho dificultam a passagem... e no final, um “toca pra cima” conhecido com “El Palon”, que acaba com todas as energias! Soma-se a isso o peso de nossas mochilas, desta vez carregadas com todo o equipamento pessoal e a altitude, que tocava os 5.000m...


Mais um dia de descanso, no Campo I. E neste dia, a neve veio com toda a força! Se nos primeiros dias, tivemos sol de rachar e calor além do agradável, desta vez estávamos experimentando o verdadeiro frio da alta montanha. À noite, era comum a temperatura dentro da barraca margear os 10 graus negativos. Fora da barraca, por volta de -20º, com sensação térmica beirando -30º.


No dia 10, levantamos acampamento e subimos para nosso segundo campo de altitude, Campo III de Guanacos (sim... Campo III, pois é o terceiro acampamento de altitude de outra rota). Desistimos da rota original que pegaríamos, a Travessia dos Polacos, pois a quantidade de neve era tão grande, que teríamos que lidar com neve pela cintura. Então, resolvemos alterar o itinerário, para uma rota com menos neve e gelo. O único problema, é que este desvio nos custaria alguns quilômetros a mais...


Nosso grupo subindo ao campo I

Subida extenuante, com muita neve e vento. Após chegar ao colo entre o Aconcágua e o Ameghino (montanha de 5.900m, ao lado do Aconcágua), breve descanso. Retomamos a caminhada, mas alguns integrantes já mostravam sinais de exaustão. Já próximos ao acampamento, a Cláudia pediu para fazermos uma nova parada, pois não agüentava mais o peso da mochila. Neste momento, o vento forte trazia uma neve fina, que parecia cortar o rosto. O frio era intenso e eu só pensava em chegar às barracas, à 5.500m de altitude. Quase às 15:00h, chegamos às barracas, que já estavam armadas (muito obrigado aos carregadores!!!), no mesmo momento em que a nevasca tomava proporções mais severas.


No dia seguinte, teríamos um dia de descanso. Contudo, por infelicidade do destino, houve algum problema no parque... Zé e Carlos Londoño estavam precisando de remédio para controlar a pressão arterial, que naquele dia estava em falta! Resultado: eles teriam que baixar. O baque foi forte. Senti muito mesmo, pois o Zé estava forte e não sentia os males da altitude. Contudo, problemas de pressão em altitude são seríssimos, embora “silenciosos”. Sabiamente, nosso querido Zé acatou a decisão dos guias e retornou.


Situação no campo III de Guanacos

Com essas baixas, Fernando Ferraz, que sofria desde o início com um problema intestinal, resolveu descer também. Outro forte baque, pois se existiam duas pessoas que eu queria no cume comigo, estas pessoas eram o Zé e o Ferraz...


Para completar, nosso integrante paulista, o Marcel, que sofria com o ritmo imposto nas caminhadas, resolveu abandonar a missão também. Marcel era debutante em altas montanhas, mas para espanto de todos, mostrava-se forte como um montanhista experimentado. Foi a grande revelação do grupo, além de possuir um ótimo humor!

Após estas baixas, comecei a me questionar se eu prosseguiria ou não. Ainda sentia-me forte e sabia que faltavam apenas dois dias de caminhada até o cume. Eu não havia sentido os efeitos da altitude. A oximetria mostrava que meu organismo estava adaptado. Então, lembrei de todo esforço até então e tive mais determinação ainda para prosseguir! Começamos nosso ataque ao acampamento de Cólera, à 6.000m de altitude, último acampamento antes do tão sonhado ataque ao cume. Subida realmente puxada, onde se passa por um rotor de helicóptero, caído há alguns anos, ao tentar um resgate por aquelas bandas. Visão realmente sinistra...


Frio absurdo na subido à Cólera

Mas para nosso azar, a subida não seria tão simples. Na metade do dia, começou a se formar uma forte tormenta, que reduziu nossa visibilidade a menos de 10 metros. O vento era feroz e o frio insuportável. Algumas vezes, nosso guia parava e esperava alguma “janela” em meio daquele branco total. Percebemos que a situação era grave. O caminho era uma incógnita e subíamos por encostas aprumadas, sem poder escorregar, pois um só vacilo seria motivo para uma queda sem fim.


Em meio a este caos, a Cláudia sentou-se, sem forças para levantar. Peguei algumas coisas dela e pendurei-as na minha mochila. Nosso guia, heroicamente, pegou a mochila dela, conectou-a em sua mochila e passou a carregar as duas. Realmente impressionante! Nos 90 minutos seguintes passamos por campos de neve pela cintura. Em alguns momentos, precisamos engatinhar, como bebês, para não afundar na neve. Cláudia não tinha mais vontade própria: era simplesmente apontada para a direção correta e incentivada por nós dois a não parar. Foi assim que conseguimos chegar a Cólera.


O dia seguinte, 13 de fevereiro, estava magnífico! Seria o dia do ataque ao cume, mas decidimos tirar este dia para descansar. Fomos recebendo por rádio os informes do dia anterior... Dois mortos por congelamento. Um desaparecido (que sabíamos que ia morrer, claro). Dois feridos severamente por causa de uma avalanche. Três pessoas com congelamento grave. Quatorze pessoas amontoadas, num pequeno refúgio ao lado de nossa barraca, pois era impossível armar barraca nas condições climáticas... O dia de descanso tornou-se um dia de pressão psicológica. Além disso, convenhamos... ninguém descansa bem aos 6.000 metros, com uma temperatura média de -25º!


Após uma noite gelada e mal dormida, acordamos às 3:45h para o tão esperado ataque ao cume! Cláudia não conseguia colocar as polainas, os grampons, os googles (óculos), a lanterna de cabeça e os mitones (luvas de pena de ganso). Tive que fazê-lo para ela. Apesar do trabalho dobrado, eu estava pronto às 5:00h da manhã, conforme combinado. Entretanto, tivemos que esperar por outra equipe, também composta de um guia e dois participantes, que nos acompanharia. Isso nos causou um atraso de 40 minutos, que - eu sabia - seriam valiosos mais tarde...


Começamos a caminhar às 5:45h, sob as luzes de nossas lanternas de cabeça. Respiração ofegante. Nenhum som além do vento e do metal de nossos grampons rasgando a neve. Cabeça focada. Um pé depois do outro.... um pé depois do outro.... respira... respira.... um pé depois do outro... enfim, assim eu seguia, concentrado em cada movimento, por encostas bastante íngremes e assustadoras.

Início do ataque ao cume, ainda bem cedo

Às 9:00h da manhã, já com um sol bem tímido, chegamos a uma altura de cerca de 6.400m. Paramos para um segundo descanso, a pedido da Cláudia. Foi quando olhei no rosto dela, parcialmente tapado pelas máscaras e agasalhos. Era a definição perfeita de uma pessoa catatônica. Pablo tentava reanimá-la. Eu ficava cada vez mais preocupado com o horário, e com todas aquelas pessoas nos passando. Chegou o momento que não passava mais ninguém. Percebi que estávamos ficando por último, com um atraso grande.


Talvez tenha sido a decisão mais difícil da minha vida... mas após um choro comprimido perguntei ao guia se no nosso passo chegaríamos ao cume. A resposta foi simples: “Não... temos que apertar o passo se quisermos chegar lá.”. Isso estava fora de cogitação. A Cláudia mal conseguia andar lentamente. Ela ainda esboçou se oferecer para descer sozinha, de modo que eu e o Pablo continuássemos. Mas na alta montanha, não se pode andar sozinho. Nesse momento, chorei muito. Percebi que havia perdido minha chance de cume. Virei ao guia e falei determinado: “Vamos descer. Não há sentido em subir só por subir, pois não chegaremos ao cume e estamos a cada passo aumentando a chance de um problema maior.”. Foi fod#... O cume era visível, aparentemente tão próximo... mas tão longe...


Antes de descer, pedi para o Pablo tirar algumas fotos, que deveriam ser feitas no cume, com a bandeira dos clubes, com uma foto do meu filho e com uma foto da família.

Eu, a cerca de 6.400m de altitude, próximo ao cume

Descemos rápido e em pouco tempo estávamos de volta às barracas. Sinceramente, não agüentava mais estar ali. Perguntei então se seria possível descermos até Plaza de Mulas (descemos pela rota normal, pois já era possível, deste ponto, virar para o outro lado da montanha) neste mesmo dia. A resposta foi um alívio.


Ajudei a desarmar a barraca, com muita dificuldade, pois tínhamos que usar pás e picaretas para quebrar o gelo formado. Começamos a descer por volta do meio dia. No total, descemos algo em torno de 2.000 metros de uma só vez, chegando à Plaza de Mulas, campo base da rota normal, aos 4.300m. Logo de cara, coca-cola e cheeseburgers! Estava de volta à civilização!!!

Cláudia descendo lentamente com o auxílio do Pablo

Esta noite, visitei a médica do campo base, pois não sentia os dedos dos pés. O motivo disso foi a bota apertada, unida à forte e longa descida, que forçou a ponta dos pés a ficarem sem circulação. Com o frio intenso, ocorreu um congelamento de 1º grau nos pés. Nada grave, mas que vai incomodar por mais de um mês...


No dia seguinte, mesmo com os pés incomodando bastante, caminhamos os 27 quilômetros de Plaza de Mulas até a entrada do parque. Sim, estávamos na civilização. Meu primeiro ato?! Tomar uma cerveja geladíssima!!!


Gostaria muito de agradecer aos guias, que foram sensacionais! E agradecer a companhia de cada integrante da expedição. Vocês foram nota 1000!!!

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© 2018 por PEDRO BUGIM

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