Bolívia da Rocha ao Gelo

Atualizado: 16 de Out de 2018

Uma excursão independente que foi das primeiras conquistas em escalada em rocha do Deserto do Uyuni, aos seis mil metros de região do Sajama, passando por solos intensos acima dos 5 mil, nas montanhas do Condoriri

Laura na exaustiva subida ao Acotango (6.054m)

O planejamento

Quando tomei a decisão de voltar à Bolívia pela quarta vez, era visível a feição de incompreensão de todos aos quais eu compartilhava a informação. “Mas de novo?” muitos me perguntaram. Minha resposta era quase automática: “Já imaginou conhecer as montanhas do Rio de Janeiro em apenas uma viagem?”. Nem precisava me estender ao Brasil como um todo, pois pensando apenas no nosso Estado, já se tem a proporção do quão inexequível isso seria. E passada a viagem, tenho a certeza de ter tomado a decisão mais acertada possível, afinal, a cada ida por lá, encontro mais e mais montanhas para conhecer.


O planejamento foi complexo, pois além de viajar com minha namorada Laura (ainda com pouca experiência em alta montanha), nossos objetivos eram bem distintos, envolvendo escalada em rocha – conquistas, para ser mais exato – e altas montanhas, percorrendo quatro regiões diferentes do país. Com isso, foram mais de 80 quilos de equipamento, mantimentos, roupas e demais “traquitanas”, representando talvez a grande problemática da viagem: embarcar nos aviões com tudo isso, sem ser barrado ou pagar taxa.


Nossa maior preocupação entretanto, era com a aclimatação, pois apesar de termos 23 dias para a viajem, nosso cronograma estava relativamente apertado para tantos objetivos. Para nossa grata surpresa, Laura teve uma aclimatação meteórica, sem sentir em nenhum momento os sinais mais severos da altitude, como enjoo e dor de cabeça. Talvez por estar mais acostumado a esses ambientes, também me senti forte e sem sinais dos males da altitude, desde o momento que pisamos em La Paz (a chegada já se faz a 4.100m de altitude).


Chacaltaya (5.421m)

Sem perder tempo, em nosso primeiro dia por lá (dia 23/07), já fomos ao Chacaltaya (5.421m), montanha que antigamente abrigava a estação de esqui mais alta do mundo, mas que foi fechada pela relativa falta de neve. Apesar de haver uma trilha bem simplória de acesso ao cume, optamos por subir pela face Sul, onde existe um grande campo nevado, com inclinação razoável, à fim de testar nossa aclimatação e para que eu pudesse passar algumas técnicas de neve e gelo para a Laura. Objetivo atingido com louvor!


Laura na subida da Face Leste do Chacaltaya

Conquistas no Deserto do Uyuni (4.050m)

Na sequência, saímos de La Paz e rumamos para a região desértica do Uyuni, povoado situado no distrito de Potosi, famoso pelo seu enorme salar (o maior do mundo), em uma viagem de cerca de 10 horas de ônibus. Lá chegando, nossa missão não seria simples... precisávamos contratar um transporte que nos levasse à Itália Perdida (uma região rochosa no meio do deserto, distante 180 quilômetros da cidade do Uyuni), nos deixasse por lá e nos resgatasse quatro dias depois. Apesar de existirem dezenas de empresas de turismo que fazem o tradicional passeio ao Salar do Uyuni, nenhuma havia até então se deparado com este tipo de demanda, o que causou bastante confusão entre os donos das agências. Por fim, conseguimos um 4x4 ao valor de 1.600,00 bolivianos (cerca de R$850,00) para a empreitada.

Nosso acampamento a 4.050m de altitude, na Italia Perdida, em meio ao Deserto do Uyuni

A Itália Perdida está localizada mais ao sul do salar do Uyuni, já fora da sua abrangência, em uma altitude de 4.050m. Em 2014, quando fiz este passeio, tive a sorte de o meu motorista passar por lá, pois não se trata de um ponto tradicional no roteiro turístico. Desde então, vinha fazendo planos para conquistar vias de escalada naquelas incríveis agulhas virgens. E finalmente, três anos depois, este dia chegou!

Pedro Bugim na conquista da "Back to Bolívia" (Vsup E1 - 30m - Móvel)

Nos quatro dias que se passaram, tivemos a felicidade de conquistar 12 vias e uma variante, nos mais diversos estilos, sendo a maioria com proteções móveis e algumas com proteção fixa e mistas, todas com proteções fixas no cume, para rapel / top-rope. O mais impressionante foi poder pisar em alguns cumes que jamais tiveram a visita de um ser humano. Outro motivo de orgulho foi consolidar o Brasil como responsável pelas primeiras conquistas na região! Alguns poucos turistas, que passavam por lá com seus grupos, ficavam encantados e curiosos com aquele casal de aventureiros, acampados em uma barraquinha no meio do nada, subindo pelas paredes... enquanto que os guias bolivianos, ficavam espantados ao ver uma pessoa no topo de algumas rochas as quais eles diziam há tantos e tantos anos, serem impossíveis de subir.

Pedro Bugim na conquista da via "Deus é Brasileiro" (VIsup E1 - 20m)

Quando voltamos para La Paz, foi curioso ser reconhecido por algumas pessoas nas ruas, as quais nos abordavam para perguntar se não éramos nós que estávamos escalando no deserto do Uyuni! Mas apesar disso, nossa cabeça já estava em transição, do modo “rocha” para o modo “gelo”. Em dois dias já estávamos com os mantimentos renovados e mochilas prontas para a terceira etapa da viagem: o Condoriri.


Um dos "cumes" virgens que conquistamos no Uyuni

Comemorando mais uma conquista!

Faça o download do Guia de escaladas do Uyuni (português, inglês e espanhol):




Condoriri (entre 4.300m e 5.648m)

O Condoriri é uma região montanhosa no meio da Cordilheira Real, com picos mistos (rocha e gelo), ao redor da laguna Chiar Khota, possuindo seu campo base à 4.600m de altitude, de onde é possível atacar os cumes do entorno. Para chegar lá, contratamos um transporte que nos levou até a Rinconada (um povoado minúsculo já próximo ao campo base). Após caminhada de cerca de duas horas, chegamos ao local propício para armarmos nossa barraca e onde as três mulas que contratamos já nos aguardavam com os equipamentos e mantimentos para a semana que passaríamos por lá.

A belíssima região do Condoriri, bem próximo ao nosso campo base

No dia seguinte, começamos os trabalhos atacando o cume do Pico Áustria (5.315m), montanha que apesar de alta, não representa grandes obstáculos técnicos para ser ascendida. Completamos nosso objetivo às 14:30h, após quatro horas e meia de subida. Para descer, levamos cerca de duas horas, tentando manter um passo bem tranquilo e cadenciado, para evitar lesões logo no início.

Laura no cume do Pico Áustria (5.315m)

O terceiro dia por lá seria de descanso... mas eu estava me sentindo tão bem e confiante, que tomei a decisão (após breve consulta à Laura, que me deu seu aval) de tentar em solo o cume do Cabeça de Condor (5.648) – ou Condoriri -, montanha mais emblemática da região, sendo também seu ponto culminante. Acordei uma hora da madrugada e reparei que apesar do frio congelante (cerca de -15°c), não havia vento, o que me gerou um alívio tremendo. Me arrumei com calma, comi um miojo gentilmente preparado pela Laura e iniciei a jornada exatamente às 2h da manhã.

A imponente parede final do Cabeça de Condor (5.648m)

Como se trata de uma montanha técnica, o comum é ter ao menos duas pessoas, que vão encordadas e realizando os procedimentos de segurança nos pontos mais técnicos, verticais e expostos. Como eu não tinha esta possibilidade, cada passo dado, cada lance vencido, representava um forte exercício mental, pois a margem para erros era zero. O trecho final da escalada, anterior à crista do cume, é feito em uma espécie de canaleta / chaminé bem vertical, que no dia estava coberta de gelo duro. Esta parte sem dúvidas foi a parte mais técnica, ainda mais após as horas de subida por terreno bem vertical, em pedras soltas e glaciares repletos de gretas assustadoras. Entretanto, o maior desafio foi justamente na parte final, onde uma crista vertical e afiada como uma faca se estende por muitos e muitos metros antes do ponto culminante. A cada lufada de vento, um susto! Mas, passo após passo eu subia lentamente, até que, quando eu menos esperava, a parede de gelo subiu da minha frente abrindo espaço para uma vista magnífica, indicando que não havia mais o que subir. Eu estava no cume!

Pedro no cume do Cabeça de Condor (5.648m)

A descida foi um pouco mais aterrorizante que a subida em alguns pontos, mas para a minha felicidade, havia uma chapeleta fixada no topo da chaminé congelada, permitindo a descida por rapel (eu havia levado uma corda de 60m / 8mm na mochila) neste ponto mais vertical. Em um ponto mais abaixo, também com grande verticalidade, abandonei um cordelete no gelo (fazendo uma ponte de gelo) para mais um rapel, rezando para aquilo aguentar o meu peso. Poucas horas depois o terreno foi ficando mais amigável, com menos gretas e menor verticalidade... e em pouco tempo, exatamente às 11:20h da manhã, após 9 horas e meia de ralação, eu chegava de volta à barraca, sendo recebido carinhosamente pela Laura. Não poderia estar mais feliz!


E nosso quarto dia por lá foi tão intenso quanto o terceiro. Novamente, acordamos de madrugada e saímos às 2h para mais um dia de aventuras. Nosso objetivo era o Pico Tarija (5.320m), montanha iniciada por uma caminhada de 3 quilômetros em solo firme, evoluindo para um glaciar gigantesco até quase seu cume. Mais uma vez tivemos o privilégio de subir em um dia lindo, sem nuvens e pouco vento, apesar da temperatura baixa. Laura vinha sempre em um ritmo tranquilo, sem correria, o que nos permitia prosseguir por horas sem parar. Além das enormes gretas que são atravessadas, houve também um ponto mais complexo, já chegando ao cume, onde a crista fica mais vertical e afinada. Após alguns momentos de grande esforço para vencer esta parte, Laura se juntava a mim neste cume magnífico, às 7:35h da manhã.

Pedro e Laura no cume do Tarija (5.320m)

Ainda juntei forças para desescalar um longo trecho de rochas (cerca de 80 metros) para atingir o colo entre o Tarija e o Pequeno Alpamayo (5.420m), montanha situada à frente do Tarija, para em seguida, a subir por sua crista sudoeste. Trata-se de uma crista nevada com cerca de 50° de inclinação, possuindo dois lances mais técnicos. Mais uma vez me concentrei ao máximo para não cometer erros, chegando às 8:40h naquele cume incrível.


A descida foi rápida, mas não tão tranquila, pois além do cansaço pelo esforço, o calor infernal nos fazia sofrer em dobro. De todo modo, estávamos em êxtase, por alcançar todos os objetivos que almejávamos. Os dois dias seguintes foram de descanso, no próprio campo base do Condoriri, com direito a pequenas caminhadas e até mesmo uma tentativa de mergulho na laguna. Que frio!

Pedro no cume do Pequeno Alpamayo (5.450m)

Acotango (6.054m)

Para fechar a viagem, ainda fomos à região do Sajama, no distrito de Oruro, onde se localiza a montanha mais alta do país, homônima à região, com 6.548m de altitude, a qual eu já havia subido em 2013. Em 2014, voltei à região para subir os vulcões gêmeos Pomerape (6.282m) e Parinacota (6.348m). Desta vez, decidimos voltar para atacar outra montanha clássica da localidade, também acima dos 6 mil metros: o Acotango (6.054m), tida como uma das mais simples da região acima desta altitude. Trata-se de um vulcão extinto, possuindo dois vizinhos (Capurata – 6.014m e Guallatiri – 6.071m, este ainda ativo) tão impressionantes quanto o próprio Acotango.


Mas o que parecia ser um final tranquilo de viagem, se mostrou um verdadeiro tormento. A começar pelo transporte que contratamos, pois às vésperas de nossa subida, por volta das 20:30h, fomos informados que o motorista não poderia nos levar! Banho de água fria. Passamos mais um dia no Sajama, quando aproveitamos para caminhar e conhecer os gêiseres e banhos termais da região. Decisão totalmente errada, que nos custou uma caminhada de 20 quilômetros pelo deserto, a mais de 4.500m de altitude, consumindo energias que seriam extremamente necessárias depois...

Nascer do sol durante a subida do Acotango (6.054m)

Finalmente, em nosso terceiro dia, conseguimos rumar para a montanha. Mas mais uma vez nosso transporte nos decepcionou, atrasando muito, nos deixando “na entrada” da trilha apenas por volta das 4:30h da manhã, enquanto que o horário que prevíamos seria ao menos uma hora e meia antes. E sim... “na entrada” com aspas, pois a motorista, com medo de subir mais, ou por simplesmente não conhecer o local, nos deixou a nada mais nada menos que uma hora e meia de distância da verdadeira entrada. Por sorte, cruzamos com outro grupo subindo de carro, que nos sinalizou o ponto exato do início.


Nosso cenário era este: início da trilha, a 5.500m de altitude, com atraso de 4 horas, às 7h da manhã, sem conhecer o trajeto até o cume, com um vento infernal, cerca de -20°c, já tendo caminhado mais de duas horas e meia e subido 250 metros verticais. Mesmo assim, juntamos forças e começamos nossa longa jornada.

Laura no cume do Acotango (6.054m)

Deste ponto em diante, o caminho em si é relativamente tranquilo, com alguns trechos de subidas fortes, mas sem lances técnicos. Em algumas partes, há queda de rochas e grandes precipícios nas laterais, o que pode conferir aos montanhistas uma queda fatal em caso de qualquer falha. Exaustos por todo esforço feito antes, eu e Laura íamos nos arrastando lentamente em direção ao cume, seguindo sempre a antiga borda do vulcão, por sua aresta sudoeste. Na parte final, encontramos alguma dificuldade na verticalidade e como não levamos corda ou piolets, optamos por traçar uma rota um pouco mais extensa, contornando o cume pela direita, em um exaustivo trabalho de criação de degraus, cavando com os pés. Foi então que, finalmente, às 13 horas fincamos nossos crampons no ponto culminante da montanha!

Pedro no cume do Acotango (6.054m)

Ficamos muito pouco tempo no cume, apenas o suficiente para algumas fotos e filmagens. Optamos por descer pela aresta Leste, por aparentemente ser um caminho mais curto, embora mais técnico. Péssima escolha. Os primeiros metros de fato foram bem tranquilos, nos quais ganhamos um tempo precioso. Mas conforme íamos descendo, fomos nos deparando com campos infindáveis de penitentes (agulhas de gelo formadas no solo pela ação do vento), o que tornava nosso progresso lento e penoso. Não obstante, o terreno começou a ganhar verticalidade, nos obrigando a desescalar porções de gelo duro, técnico, sem o artifício de cordas e piolets, tudo isso com um abismo de 700 metros aos nossos pés. Além de físico e técnico, este trecho se mostrou sobretudo psicológico, exigindo concentração e calma, por horas a fio, até enfim chegarmos ao fundo do vale. Deste ponto em diante, nos “arrastamos” por mais cerca de meia hora até chegarmos às 17h ao local onde o veículo que contratamos nos aguardava. E como nem tudo são flores, para piorar nossa situação, o carro apresentou problemas mecânicos, nos deixando presos no meio do nada até as 20h, quando finalmente conseguimos um resgate. Saldo do dia: 18 horas de atividade (13 delas na montanha), mais um cume de 6 mil metros no currículo e dois corpos completamente moídos!


Os três dias seguintes que ainda tínhamos na Bolívia foram motivo de dúvida... tentaríamos mais alguma montanha? Mas no fim, nos rendemos aos prazeres turísticos mais comuns: boa comida, cerveja e muito descanso! Aproveito para parabenizar a Laura, que superou todas as expectativas e logrou êxito em todos os cumes que tentamos juntos, além de ter sido uma companheira perfeita!


E que venha a próxima viagem à Bolívia!


Filme da viagem:



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© 2018 por PEDRO BUGIM

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