Manutenção do Artificial da Caixa de Fósforos

Para fechar o ano de 2018, particularmente marcado pela boa quantidade de manutenções de vias que realizei, nada melhor do que a recuperação de mais uma via clássica, localizada na icônica região dos Três Picos.

Pedro Bugim na manutenção do Artificial da Caixa de Fósforos - Três Picos / Friburgo
A conquista da Caixa de Fósforos data de fevereiro de 1944, primazia de Sylvio Joaquim Mendes, Índio do Brasil Luz e Jair Leopoldino da Costa, sendo audaciosamente realizada com o uso de troncos amarrados por grampos.

Em fevereiro de 1969, este impressionante monólito recebeu a via em artificial que hoje em dia é a usual de acesso ao cume, pelas mãos de Giuseppe Pellegrini, Carlos Alberto Carrozzino, Waldinar dos Santos Menezes e José Luis Barbosa, todos do Centro Excursionista Rio de Janeiro (CERJ). Atualmente, além desta via, existe apenas mais uma que faça cume, à sua direita, conquistada pelo escalador Sérgio Tartari: a difícil "Gramoxone" (VIIIc).


Após décadas, a via artificial recebeu algumas poucas manutenções, com a substituição de parte das proteções usadas na conquista (chapeletas caseiras fixadas com parafusos de piano e grampos "stubai" de 1/4), sendo a última em 1999, realizada pelo escalador Waldecy Lucena, com a instalação de poderosos grampos de 1/2 polegada, sobretudo na parte superior da via. Entretanto, alguns trechos ainda contavam com algumas proteções duvidosas, fato que estimulou a ação realizada neste final de ano.

Caminhada para a Caixa de Fósforos, com os Três Picos e o Capacete ao fundo, sob o sol escaldante

O dia escolhido foi o dia 30/12/2018, um domingo ensolarado, a apenas dois dias do ano novo. Como estávamos na região para comemorar a virada de ano, aproveitamos para levar um grupo na trilha da Caixa de Fósforos, unindo o útil ao agradável. Assim sendo, fomos eu, Laura, meu filho João Pedro, Waldecy, Bianca, Velho, Michelle, Carrera, Sebá e Brigite na empreitada.

Traçado aproximado do artificial da Caixa de Fósforos

Estávamos instalados na casa da querida Simone, o que nos conferiu uma caminhada um pouco mais extensa, que, unida ao forte calor que fazia e ao peso que carregávamos, representou um desafio relativamente maior do que esperávamos. O tempo total até a base do artificial foi de cerca de 3 horas, com um gasto considerável nas partes finais da trilha, onde a degradação está bem acentuada. Nestes pontos, correntes foram instaladas como facilitador / direcionador, entretanto, com o terreno úmido, fez-se necessário o uso de cordas e procedimento de segurança para evitar qualquer acidente. Acredito que um manejo nesses pontos se faz necessário...

Um dos grampos de 1/2 da manutenção de 1999, ao lado de uma chapa caseira, fixada com parafuso de piano, da época da conquista

Waldecy tomou a dianteira e rapidamente já estava trabalhando os lances artificiais, enquanto os participantes chegavam à base da pedra. Após chegar ao cume, seria a vez da Bianca subir na segurança do Wal. Entretanto, o horário avançado e um pouco de confusão no início da via (a parte mais negativa e complexa), ela acabou abdicando da ascensão, para que o trabalho de manutenção não fosse prejudicado.


Fui então ao encontro do Wal, no cume da Caixa de Fósforos, guiando com a segurança da Laura, aproveitando para fazer uma minuciosa inspeção em cada uma das proteções instaladas.

Pedro Bugim e Waldecy Lucena, no cume da Caixa de Fósforos, Três Picos / Friburgo

De fato, algumas proteções na primeira metade da via aparentavam não suportar uma queda, caso fossem proteções para lances de progressão em livre. Entretanto, para lances artificiais, aparentemente estavam condizentes com seu propósito. De todo modo, achamos por bem realizar a troca dos grampos de 1/4 e 3/8 que ainda existiam na parede.


Todas as 8 proteções instaladas foram chapas rapeláveis PinGo, gentilmente cedidas através do Fundo de Incentivo ao Manejo de Trilhas e Vias de Escalada (FIM-TE), da Federação de Esportes de Montanha do Estado do Rio de Janeiro (FEMERJ).

A manutenção começou pela criação de uma parada dupla no topo, aonde se encontra um grampo de 1/2 polegada, ainda em perfeito estado de conservação, covardemente amassado por algum vândalo disfarçado de montanhista.
Waldecy instalando a parada dupla no final do artificial, com detalhe para o grampo de 1/2 ainda em ótimo estado, porém, covardemente amassado

Depois, foram retiradas duas chapeletas caseiras, ainda da época da conquista, que estavam ao lado de grampos de 1/2, da manutenção de 1999 (todos os grampos de 1/2 da via estão em ótimo estado de conservação), na parte superior da via. Algumas destas chapeletas ainda permanecem na parede, ao lado de proteções novas, não sendo retiradas por conta do horário avançado.

Os grampos de 3/8 (1 e 2), chapeletas caseiras (3 e 4) e stubais de 1/4 (5 a 8) retirados do artificial

Na sequência, foram retirados 4 grampos de 1/4, sendo devidamente substituídos por chapeletas. Mais abaixo, dois grampos de 3/8 também foram substituídos. Para finalizar, duas chapeletas foram instaladas ao lado do segundo e terceiro grampos da via (ambos de 3/8) sendo os mesmos mantidos na parede, devido ao fato destes lances serem, na maioria da vezes, feitos laçando os grampos. Assim, ainda pode-se fazer o "laçamento" nos grampos, mas com proteção em chapas novas.


Como esperado, os grampos de 1/4 foram sacados sem resistência, às vezes, com apenas duas marretadas laterais (o trabalho mecânico deles é feito verticalmente, e não de forma lateral, por isso, não se pode afirmar que estavam em más condições para lances artificiais). Já os grampos de 3/8 ofereceram uma resistência superior, porém, ainda abaixo da expectativa, caso fossem proteções para lances em livre.


O único grampo que permaneceu sem troca ou adição de chapa ao lado, foi o primeiro da via, tradicionalmente laçado no início da escalada, que ainda se encontra em bom estado.

Antigo grampo de 3/8 com uma chapeleta PinGo, instalada ao lado. No início da via foram mantidos dois grampos com chapa ao lado, para facilitar o "laçamento" no lances mais longos

Curiosamente, percebemos que a linha atual segue ligeiramente diferente da linha original da conquista, sendo um pouco mais espaçada (lances mais longos) e com a primeira proteção mais alta do que as instaladas na época da abertura da via. Isso foi possível através da observação dos parafusos arrancados nas manutenções anteriores, ainda aparentes em determinados pontos. Decidimos por manter a configuração atual, haja vista estar sendo utilizada há décadas, sem maiores complicações.


Com isso, o Artificial da Caixa de Fósforos passa a contar em sua totalidade com proteções substituídas ao longo de sua existência, sem a necessidade de uso das proteções da época da conquista.


Agradecimentos ao Waldecy, pela parceria no serviço, à FEMERJ pela doação das proteções e a todos os participantes da atividade, que de alguma forma colaboraram para o sucesso da empreitada. E que venha 2019, cheio de aventuras e manutenções! ;-)

Pedro Bugim, João Pedro e Laura Petroni, no mirante da Caixa de Fósforos, com os Três Picos e o Capacete ao fundo

279 visualizações6 comentários

© 2018 por PEDRO BUGIM

  • b-facebook
  • Twitter Round
  • Instagram Black Round