Bolívia 3: Missão Tonteria Total

Atualizado: 5 de Set de 2018

Entre os dias 23/08 e 14/09/2014, estive pelo terceiro ano seguido na Bolívia, sendo brindado com grandes aventuras e ótimos momentos, tendo sido eles entre amigos ou no mais puro estilo solitário. Incrível como aquele país continua sendo uma caixinha de surpresas, sobretudo por conta de suas infindáveis montanhas que superam a faixa dos 5 e 6 mil metros de altitude.

Ilana na exaustiva subida final do Parinacota (6.362m), com o Pomerape (6.282m) atrás

Chacaltaya (5.421m)

Desta vez, iniciamos subindo o Nevado Chacaltaya, que em verdade, é feito de carro até os 5.200m, deixando a pequena parte final para ser subida à pé. Aproveitei para subir pela face leste, onde uma bonita rampa de neve e gelo perdura onde outrora funcionava uma estação de esqui, enquanto meus amigos Flavio de Lima, Ilana Nina e Zezinho subiam pela rota normal.


Flavio e Zezinho subiram sem problemas, enquanto que a Ilana teimava em sentir a ação da altitude. E não era para menos... há menos de 12 horas, estávamos todos no conforto do nível do mar! De todo modo, seguimos todos para cima, nos encontrando no cume, com uma belíssima vista da face Norte do Huayna Potosi (6.088m), montanha que eu havia subido em 2012.

Subida do Chacaltaya pela rota normal, vista da face Leste

Condoriri

Tivemos mais dois dias de descanso, compras e arrumação de equipamentos, para então partirmos à segunda parte da aventura, que se daria na região do Condoriri, local que possui campo base à 4.600m de altitude, agrupando inúmeras montanhas de até 5.648m.


Chegamos no local após cerca de duas horas de caminhada à partir do ponto onde nossa condução alugada nos deixou, contando agora, além dos quatro integrantes iniciais, com a companhia do André Rodrigues. Em pouco tempo armamos nossas barracas e pudemos desfrutar de uma belíssima noite estrelada, embora extremamente fria.


No dia seguinte acordamos tarde e tocamos para nosso primeiro objetivo da região: o Pico Áustria, com 5.315m de altitude. Como o Flavio não se sentiu bem durante a noite, fomos apenas eu, Ilana, André e Zezinho, saindo do acampamento por volta das 10h da manhã. Pegamos um dia ensolarado, embora bastante frio e com muito vento, que acabou trazendo nuvens tenebrosas ao final do dia. A subida seguiu sem grandes transtornos, durando pouco mais de 4 horas até um cume magnífico, que dava visão de toda a área! Descemos rapidamente, de modo que às 16:30h já estávamos no precário conforto de nossas barracas, para então apreciar uma merecida janta.

Cume do Pico Áustria (5.315m)

O terceiro dia no camping foi reservado para recuperarmos as forças e nos prepararmos para o dia seguinte, que seria o dia principal da atividade: ataque aos cumes do Tarija (5.200m) e Pequeno Alpamayo (5.425m). Durante o dia, as nuvens começaram a aparecer de forma assombrosa, intimidando-nos, pondo em dúvida a atividade do dia seguinte. Mesmo assim, fomos dormir esperançosos.


Eis que às 2h da madrugada, acordamos com um céu estrelado, pouquíssimo vento e uma temperatura relativamente agradável! Era nossa deixa para seguirmos com os planos. Infelizmente, com o Flavio ainda debilitado, e com o Zezinho sentindo fortes dores de cabeça, o grupo acabou sendo mais uma vez desfalcado. André se propôs a ficar no camping também, de modo que apenas eu e Ilana lançamos o ataque aos cumes, iniciando a jornada às 3h da matina, após um enriquecido café da manhã (miojo e cappuccino!).


Caminhada de 3 quilômetros até a base do glaciar principal, feita em cerca de uma hora. Deste ponto em diante, colocamos nossos crampons e começamos a cansativa subida de 500 metros verticais em pura neve e gelo. Imprimimos um ritmo constante, sem pausas, mesmo porque qualquer parada no glaciar é bem desconfortável. Em dois momentos, deixei uma das luvas de pena de ganso cair pelo glaciar, quando tentava tirar fotos. Em ambas as vezes, por sorte, a luva foi travada por pequenas saliências no gelo. Ufa!

Eu, em meio à tempestade que pegamos na subida do Tarija

Algumas horas depois, chegando ao colo entre o Tarija e o Pico Wyoming, à cerca de 5.100m de altitude, o tempo começou a virar e fomos atingidos por uma nevasca intensa, impedindo o prosseguimento. Encontramos uma grande greta no caminho (elas são muitas!) e conseguimos, com cuidado, nos abrigar no interior da mesma. Foram quase 40 minutos de indecisão, esperando o tempo dar uma trégua, que acabou não vindo. E a decisão não poderia ser diferente: retornar.


Na descida, o tempo sofreu uma leve reviravolta e percebemos que ainda dava tempo de um plano “b”. Decidimos então fazer uma longa travessia diagonal no glaciar, à fim de atacar o pico do Ilusion, uma montanha com 5.360m de altitude, que se localiza logo à frente do Pequeno Alpamayo. Avançamos firmemente por um bom tempo, até que as gretas começaram a aparecer em grande quantidade, e, principalmente, de forma assustadora. Muitas estavam encobertas com finas camadas de neve recente, o que dificultava sua visualização. Outras, de tão largas, apresentavam seus abismos de forma sinistra, indicando que a aventura já não estava tão segura.


Após eu conseguir pular uma grande greta com segurança da Ilana, percebi que o caminho seria igualmente complexo até o cume. Neste momento, Ilana resolveu não prosseguir e nos separamos. Enquanto ela descia em segurança até a base do glaciar, retornando pela trilha que abrimos até então, eu continuei seguindo em frente, rumo ao cume. Algum tempo depois, percebi que as gretas iam aumentando de tamanho, assim como a inclinação da parede. Passei por trechos com cerca de 65° de inclinação em neve fofa e pouco gelo firme. Pulei algumas gretas e consegui desviar de muitas outras. Mas ao chegar aos 5.200m de altitude, me deparei com uma enorme greta a qual resolvi não passar, haja vista que eu já estava (há um bom tempo) sem corda e sem segurança. Frustração total num primeiro momento, tendo que amargar o fracasso de um dia cheio de tentativas. Mas alívio e felicidade plenas ao descer em segurança da montanha e perceber o quão incrível foi esta aventura e o quanto foi aprendido!

Mais uma das gretas que tivemos que pular, na tentativa do Ilusion

De volta ao camping, eu e Ilana tiramos o resto do dia para descansar com nossos amigos, que já estavam preocupados por conta do mau tempo que havia pairado sobre as montanhas, mal tempo este que justamente nos pegou de surpresa lá em cima. À tarde e durante toda noite, pudemos ouvir o som da neve batendo contra as barracas.


No dia seguinte, que havíamos deixado livre justamente para o caso de contratempos, não pudemos atacar mais nenhuma montanha: a neve caiu com força, fazendo desaparecer nossas barracas, o chão, as trilhas, as pedras e toda chance que teríamos de uma nova investida. No último dia, saímos das barracas cavando em meio à imensidão branca. Pelo menos foi interessante fazer um boneco de neve e brincar de guerra de bolas de neve com a galera! Rs... Arrumamos tudo e voltamos à La Paz apenas com o cume do Áustria “no bolso”, mas imensamente satisfeitos!

Situação do Campo Base após a nevasca

Um pouco de turismo

Nos dias seguintes, o grupo voltou a se segregar. Flavio voltou ao Brasil. André e Zezinho foram à Copacanana, Ilha do Sol e fizeram passeio de bicicleta na Estrada da Morte. Eu e Ilana visitamos o Salar do Uyuni (lugar onde inclusive mapeei várias rochas plausíveis de futuras conquistas! Quem sabe em 2015...). Esses quatro dias de “turismo” foram cruciais para recuperarmos as forças e a moral, de modo que no dia 06/09, eu, Ilana, André e Zezinho tornamos a nos encontrar, desta vez, em Tambo Quemado, distrito de Oruro na fronteira da Bolívia com o Chile, à cerca de 5 horas de viagem de La Paz.

Uma das incontáveis paisagens incríveis do Salar do Uyuni

Pomerape (6.282m) e Parinacota (6.362m)

De Tambo Quemado, contratamos uma van que nos levou ao vilarejo e parque do Sajama, local homônimo à montanha mais alta da Bolívia, com 6.542m de altitude, localizada neste parque, montanha esta que subi em 2013.

Passamos uma noite agradável e no dia 07, alugamos um carro 4x4 que nos levou a um novo refúgio construído à 5.100m de altitude, no colo entre dois vulcões gêmeos denominados “Payachatas”, nossos objetivos desta parte da viagem. São eles o Pomerape, com 6.282m e o Parinacota, com 6.362m. Chegamos no refúgio às 11h da manhã, e, sabendo que teríamos apenas este dia e o dia seguinte, resolvi fazer uma tentativa em solo de atingir o cume do Pomerape, mesmo sendo extremamente tarte para tal.


Comecei a caminhada às 11:40h, descendo até a altitude de 4.990m, para então iniciar uma longa e cansativa travessia que levaria da face sul à face oeste da montanha, visando pegar o vale e a crista oeste, com menor índice de avalanches, apesar de bem mais longa que a aresta sudeste. Após a travessia, inicia-se uma extenuante subida pelo vale oeste, finalizando em uma parede com 60° de inclinação, em gelo duro. Deste ponto em diante, segui com meus crampons e piolets por lances bastante interessantes em escalada técnica em gelo, passando por alguns pontos mais complexos, de terreno misto, com rocha relativamente podre, onde a atenção tinha que ser redobrada, para evitar uma possível queda de mais de 500 metros no abismo.

Cume do Pomerape (6.282m), já com o tempo escurecendo

Aos poucos os lances foram sendo vencidos até que às 17h, cheguei na barreira final de penitentes. Ah... os penitentes! Como eu odeio eles! Para quem não conhece, penitentes são agulhas de gelo que brotam do chão, formados pelo vento, tornando o terreno extremamente irregular e instável, representando um desafio físico e psicológico a qualquer montanhista. Une-se a isso a altitude acima dos 6.000m e tem-se a combinação perfeita para uma boa tortura. De todo modo, aos trancos e barrancos fui vencendo metro ante metro e às 17:40h logrei pisar no ponto culminante da montanha!!!


Tirei poucas fotos e fiz uma rápida filmagem. A temperatura devia estar beirando os 20 graus negativos, com um vento ensandecido e já na sombra, uma vez que com o horário avançado, o sol já não estava mais presente. Tratei de descer o mais rápido que pude, o que se mostrou um erro quase fatal: peguei uma língua de gelo para chegar novamente à parede, que sai da crista e desce ao vale Oeste, que não era a mesma que usei para subir, encontrando uma seção de verglas (gelo extremamente duro, com aparência vítrea e muito difícil de escalar). Quando me dei conta, estava acima de um abismo enorme, cercado de verglas e completamente solto, contando ainda com pouca luminosidade. Confesso que passei momentos bem tensos e tive que manter toda calma do mundo para realizar uma pequena travessia à esquerda, em trechos de rocha podre (mas sem gelo), para então alcançar uma linha de gelo razoável e subir os quase 30 metros que já havia descido. De volta à crista, coloquei a headlamp na cabeça e consegui localizar a linha correta para descer ao vale Oeste, chegando no mesmo após uma longa desescalada no gelo.


Ufa! A parte técnica havia ficado para trás, mas ainda tinha uma montanha inteira para descer no escuro e sozinho. A descida foi relativamente tranquila e sem erros, apesar de não existir uma trilha definida. Isso se deu por que na subida, me preocupei em montar diversos “totens” de pedra ao longo do trajeto, já prevendo meu retorno às escuras. Mas a pior parte foi ter que subir os últimos 110 metros verticais no vale sudeste, até o refúgio. Levei quase uma hora neste trecho, devido ao terreno arenoso, chegando de volta exatamente às 20:42h. Fui recebido pela Ilana com um miojo quentinho, que estava tão gostoso quanto uma refeição no melhor restaurante do Rio de Janeiro! Incrível como as percepções dependem apenas de perspectivas distintas!


Lua perfeita durante a descuida do Pomerape

Fui dormir esgotado, por volta das 22h, sabendo que a noite seria curta... Acordamos às 4h da manhã do dia 08, preparamos um café reforçado e às 5:30h já estávamos eu, Ilana e André, pegando o início da trilha do Parinacota. Zezinho mais uma vez sofreu com fortes enxaquecas à noite e decidiu não tentar o cume.


André na verdade havia saído meia hora antes, se adiantando bastante na trilha. Em determinado ponto, ainda no início, ele nos indicou a trilha que havia utilizado, mas cabeça dura que sou, acabei tomando outro caminho, o qual se mostrou muito mais complexo nos metros seguintes, fazendo com que eu e Ilana perdêssemos muito tempo e energia neste trecho. Quando voltamos à trilha principal, me dei conta do erro que foi, mas já era tarde demais para chorar.


Continuamos seguindo pelo terreno bem mais vertical que aparentava do refúgio, contando com vários trechos de trepa pedra e muito, mas muito terreno arenoso, que nos fazia dar dois passos à frente e um atrás. Seguimos lentamente até o ponto onde tudo vira neve e gelo. Mais penitentes... muitos deles. Já passava do meio dia e com isso, a neve ia derretendo, formando por vezes algumas seções com gelo instável e outras com gelo muito duro.


No final das contas, estávamos completamente desgastados e pensamos por algumas vezes em abortar a missão. Mas já havíamos sofrido tanto para estar ali, que simplesmente continuávamos subindo. Algumas vezes, descansávamos por 5 minutos para recuperar o fôlego, subíamos cerca de 20 metros verticais e parávamos para um novo descanso. Isso tudo, dando três ou quatro respiradas fundas a cada passo. Um ritmo tão lento que dava a impressão que estávamos parados. Em determinado ponto, por volta dos 6.100m de altitude, o André resolveu voltar. Já passava das 15h.

Ilana em uma das paradas para recuperarmos fôlego e energia, no início dos penitentes

Mas com perseverança e muita determinação, às 16:10h, consegui atravessar os 30 metros verticais finais de acarreos (pequenas rochas parecidas com brita) e atingir o ponto culminante do Parinacota, vibrando muito aos 6.362m de altitude! Ilana, que havia inicialmente desistido do cume, poucos metros abaixo do mesmo, uniu forças sei lá de onde e como uma guerreira se impulsionou até o topo da montanha, às 16:30h, onde desabou ao chegar, chorando que nem criança! Realmente, foi emocionante e inspirador presenciar esta cena.

Ilana nos metros finais para o cume do Parinacota (6.362m)

Tiramos as tradicionais fotos de cume, fizemos algumas filmagens e tratamos de descer o mais rápido possível, pois além de todo cansaço, havíamos levado muito mais tempo do que o previsto e começaria a escurecer em breve. A parte de neve e gelo foi muito desgastante. Ilana começou a passar mal e teve baixa de pressão e forte enjoo. Paramos por várias vezes para descansar até finalmente sairmos da barreira de gelo. Mas se achávamos que a parte de rochas e areia seria mais tranquila, estávamos completamente equivocados. Estávamos tão detonados, que a desorientação veio sem percebermos. Começamos a baixar por uma caminho que não conseguíamos reconhecer e começamos a tentar traçar uma diagonal para a esquerda que não deveria ser feita. Erramos feio a descida e paramos num ponto longe da descida original, novamente à beira de abismos impressionantes. Tornamos a voltar em horizontal à direita e com um sopro de luz, encontramos a linha por onde subimos. Uhuuu!!! Mas não havia tempo ou ânimo para comemorações. Ainda faltavam cerca de duas horas de descida até a segurança do transporte 4x4 que nos esperava no refúgio. E foram duas horas quase intermináveis! Mas ela terminaram... e às 19:30h pudemos sentir o calor da calefação do veículo nos enchendo de vida, num momento que então, pude me dar conta do feito: duas montanhas com mais de 6.000m em menos de dois dias!

Cume do Parinacota (6.362m), com sua enorme cratera vulcânica atrás

O corpo queria falhar, mas a mente estava tão viva, tão incrivelmente feliz, que ainda tivemos forças para, após retornar ao hostel do vilarejo do Sajama, dar uma saída à noite para presenciar uma festividade local, com direito à cerveja e um frango frito (acho que em óleo de caminhão!).


Queria muito agradecer à todos os queridos amigos desta aventura, Ilana, Flavio, André e Zezinho, por tantos momentos inesquecíveis e maravilhosos que passamos juntos! Sem vocês, tenho certeza que a viagem não teria todo seu brilho!


Parinacota (6.362m) e Pomerape (6.282m)

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© 2018 por PEDRO BUGIM

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