Cordón del Plata invernal (ou infernal?)

Atualizado: Jan 21

Com 20 dias livres em agosto de 2018, eu e Laura decidimos fazer uma viagem pouco convencional para montanhistas: ir para Mendoza, ainda durante o inverno!

Acampamento em "Piedra Grande", a 3.600m de altitude, em meio à nevasca

Após a realização de uma viagem maravilhosa, embora curta (apenas 12 dias), em maio de 2018 para o Peru, eu e Laura ainda contávamos com 20 dias livres para uma segunda aventura em terras estrangeiras. A época definida foi a segunda metade de agosto, e como a viagem anterior havia saído de forma praticamente perfeita, sem termos efetuado nenhum planejamento, mesmo indo para locais que não conhecíamos previamente, caímos na besteira de seguir com a mesma linha de pensamento... O que se mostraria um erro crasso.


O local escolhido foi Mendoza, região de contrafortes e altas planícies, no lado leste dos Andes, na Argentina, conhecida pelos vinhos altamente cotados, bonitas (e abundantes) praças e paisagem estonteantes para as montanhas mais altas dos hemisférios ocidental e sul.

Parte do equipamento levado na viagem... foram cerca de 80Kg de equipamentos e mantimentos!

Como seria minha quarta visita ao local, não me preocupei muito com o planejamento, haja vista já ter decorado todos os bons hostels, restaurantes, mercados, transportes, lojas de equipamento, rodoviária etc etc etc. Além disso, entre outras regiões de montanha, eu já havia escalado em Arenales e subido montanhas em Cordón del Plata, locais que selecionamos para nos aventurar. Ou seja, tínhamos tudo para fazer uma viagem perfeita!


Dia 11 de agosto pegamos vôo pela LATAM saindo do aeroporto internacional do Rio de Janeiro com destino ao aeroporto Ezeiza, em Buenos Aires, onde chegamos à 1:30h da madrugada do dia 12. Com cerca de 80 quilos de equipamentos de escalada e conquista, alta montanha, roupas, mantimentos e demais apetrechos, precisamos fazer um trabalhoso traslado para o aeroporto Aeroparque, onde um novo vôo nos levou à Mendoza, onde chegamos pouco após as 8h da manhã. Ufa! Primeira etapa vencida.


Segunda etapa seria buscar um hostel. E foi neste momento que as coisas começaram a degringolar. O motivo foi bem simples, que se aplicou a quase todo resto de problemas que tivemos nesta viagem: Todas as outras vezes em que estive em Mendoza, tratava-se de verão. Desta vez, estávamos no inverno! Rodamos um pouco de táxi na busca de algum canto para ficar, mas, sem reservas antecipadas, batemos um pouco de cabeça até encontrar algum local aconchegante, por um preço justo e próximo ao centro.


Outro problema foi o câmbio de moedas. Quando viajamos pela América do Sul, em geral, levamos Reais, pois quase todos os lugares aceitam nossa moeda, evitando a perda em câmbio por dólar e depois na moeda local. Na Argentina isso não é diferente, mas descobrimos que as casas de câmbio de Mendoza estavam com valores muito piores do que o praticado no aeroporto de Buenos Aires. Só ao final da viagem fomos descobrir que o Banco Nacional realiza esta troca a um valor muito superior. Nesta brincadeira, perdemos facilmente algo na casa dos 500 reais. Mais uma das mazelas da falta de planejamento e pesquisa.

Usando os novos sacos de dormir para -40° centígrados... luxo!

Passados os primeiros sufocos, nos demos ao luxo de ficar três dias curtindo a cidade, que estava particularmente gelada, contrastando bastante com o que eu estava acostumado. Em geral, fizemos alguns passeios turísticos (há um sistema de ônibus que percorrem toda a cidade e seus pontos turísticos, que recomendo largamente), conhecemos algumas vinícolas, compramos equipamentos (inclusive dois maravilhosos sacos de dormir de pluma de ganso, para -40° centígrados!) e mantimentos e fomos atrás de transporte para nossa primeira incursão às montanhas.


Novo banho de água fria: durante o inverno, a maioria dos transportes comerciais às áreas de montanha não estão ativos. Os poucos que se propõe a fazer o traslado cobram os olhos da cara. Nos vimos então em uma maré de desânimo que só passou após algumas (muitas) cervejas. Além disso, precisamos trocar de hostel, pois o primeiro que nos hospedamos, o Campo Base, não havia mais disponibilidade para os dias extras que ficamos na cidade. Andar por Mendoza, com quase 80 quilos de equipamento procurando hostel foi uma experiência terrível. Ao menos, conseguimos encontrar um hostel com preço módico, próximo ao centro e muito agradável, o Hostel Confluência!


Por fim, no dia 15, resolvemos tomar coragem e fomos à região de Cordón del Plata de ônibus, em uma viagem com cerca de 4 horas. Por lá, contratamos um transporte privado, caríssimo, para nos levar ao refúgio Mausy, localizado a 2.900m de altitude, aos pés de montanhas belíssimas, na entrada da Cordilheira dos Andes. Ao menos, o dono do transporte, Peter, era bastante simpático e solícito.

"Transfer Vallecitos", do simpático Peter. Foi a solução que achamos para chegar em Cordón del Plata

O Cordón del Plata recebe este nome por abrigar o Cerro Plata, a montanha mais alta da região, com quase 6.000m de altitude, possuindo inúmeros cumes vizinhos, como os famosos Cerro Vallecitos (5.500m) – montanha esta que subi em solo em janeiro de 2010 - e o Cerro Rincón (5.300m). A pouco mais de 50Km a noroeste, situa-se o Cerro Aconcágua, que pode ser facilmente avistado ao ascender alguns dos principais cumes desta cordilheira.


Apesar de haver refúgios no local (quase todos fechados, pela época do ano), optamos por ficar acampados, economizando assim algum dinheiro e já “entrando no clima da montanha”. Nossa estratégia por lá... foi não ter estratégia. Simples assim. Queríamos subir. Não sabíamos o quanto e nem para onde. Tínhamos algumas pretensões, como tentar o próprio Plata, ou o Rincón (este, bem mais técnico, apesar de menos alto). Assim sendo, iniciamos nossa jornada no segundo dia por lá, fazendo parte de uma travessia conhecida como “La Cadenita”, que inicia no local onde acampamos, a 2.900m, e passa por alguns cumes entre 3.400m e 4.000m.

Laura Petroni subindo o Lomas Blancas (3.850m)

A subida começa íngreme e assim segue por quase todo o tempo, o que apesar de ser desgastante, transmite uma boa sensação de estarmos subindo rápido. E assim foi: fizemos o cume do nosso objetivo principal, o Cerro Lomas Blancas (3.850m) em 3 horas e meia. Apesar do céu estar completamente aberto, o frio estava intenso e o caminho, coberto de neve. Em fevereiro de 2016 estive nesta mesma montanha, sem um mínimo resquício de neve ou gelo. Ou seja, estávamos de fato na época errada por lá, entretanto, a ideia de fazer cumes “invernais” na argentina foi algo que me seduziu desde o início.


Voltamos à barraca por volta das 16 horas, relativamente pouco cansados e felizes com a atividade. Após esta primeira etapa de aclimatação realizada com louvor, nos sentimos prontos para as etapas seguintes: entrar no vale em direção as montanhas mais altas desta cordilheira.

Laura Petroni e Pedro Bugim no cume do Lomas Blancas (3.850m)

Dia 17 acordamos cedo. O tempo continuava limpo, sem uma nuvem no céu e com pouco vento, apesar do forte frio que fazia. Após tomarmos café, desarmarmos a barraca e organizarmos as mochilas, iniciamos nossa caminhada rumo à Piedra Grande, um local de acampamento selvagem a cerca de 3.600m de altitude. Este trajeto passa por Las Veguitas, outra área utilizada para acampamento, a 3.200m. Como estávamos nos sentindo bem, decidimos não parar neste ponto, ganhando um dia extra na subida.


Chegamos relativamente cedo em Piedra Grande e rapidamente organizamos nossas coisas e armamos a barraca. A próxima tarefa seria a coleta de água, em um pequeno riacho de desgelo, a cerca de 10 minutos da área onde montamos acampamento. Este trajeto por si só já causa um pouco de preguiça, mas a emoção que me acometeu após estes 10 minutos andando foi muito pior: terror! Não havia uma única gota de água no local. Pior: havia pouquíssima neve ao redor e mesmo assim, o que havia era neve “velha” (e consequentemente, suja). Mas não para por aí: fomos com o gás perfeitamente contabilizado para os dias planejados, considerando que haveria água líquida neste ponto e no último acampamento, assim como nas outras vezes que estive por lá. Resumo da ópera: Não teríamos água suficiente, ou gás para derreter neve, para os quatro ou cinco dias que passaríamos na montanha!

Pedro Bugim subindo para o acampamento de Piedra Grande (3.600m)

Por sorte, encontramos uma dupla que descia da montanha, que nos entregou seu último litro de água (teriam acesso à água em Las Veguitas, cerca de uma hora abaixo de onde estávamos – a descida é bem mais rápida que a subida). Mesmo assim, sabíamos não ser o suficiente. O desânimo foi devastador. Ficamos fazendo cálculos e projeções, mas todas apresentavam um cenário complicado. Isso nos fez cometer um dos erros mais primários em alta montanha: tentamos economizar água e não nos hidratamos corretamente.


Se o cenário já estava sombrio, o que seria uma sombrinha a mais? Pois bem... por volta das 17h, o tempo fechou. Nuvens negras surgiram no céu com uma velocidade absurda, assim como o vento que assolou no sítio. Cozinhar era quase impossível. Sorte que já havíamos nos alimentado, quando a neve começou a cair. E caiu forte, por horas. Em poucos minutos, toda a área (assim como nossa barraca) já estava sob muitos centímetros de neve. Sair da barraca não era uma opção. Mesmo porque com o vento que fazia, estava arriscado sair tudo voando. Passamos uma noite tenebrosa em claro, sentados, segurando as laterais da barraca para não quebrar as varetas. Quando não segurávamos, o vento batia tão forte, que o teto da barraca chegava a quase encostar no chão.

Laura Petroni na manhã do dia 18, com o terreno completamente coberto pela neve

Levantamos por volta das 8h da manhã do dia 18, praticamente cavando entre a neve para sair de nosso refúgio. Cenário de derrota total, cercados por um deserto branco e gélido. Estávamos com moral baixa e acabamos ficando prostrados o dia inteiro, tentando juntar forças e calcular o que seria possível.

Sim... o frio estava intenso!!!

A segunda noite neste local foi levemente mais amena, apesar de nova nevasca e ventania. Isso nos fez descer na manhã do dia 19. Chegamos à Las Veguitas, a 3.200m por volta das 14h e mais uma dúvida nos assolou: desceríamos tudo, ou tentaríamos ficar um pouco mais na montanha? Neste ponto já havia água líquida. Mas o gás estava perigosamente no fim, o que poderia causar problemas para cozinhar. No fim, decidimos por ficar. A janta foi um gostoso macarrão ao molho pesto, com bastante queijo ralado.

Laura durante a descida de Piedra Grande (3.600m) para Las Veguitas (3.200m)

Pudemos enfim nos hidratar e alimentar de forma adequada. Isso elevou a moral e me animei para tentar algum cume no dia seguinte, nosso último por lá. Laura não estava tão empolgada, pois as montanhas a partir deste ponto ficam bem distantes (além do acampamento que fizemos em Piedra Grande, ainda há um último, em El Salto, a 4.100m, de onde são feitos os ataques aos cumes principais). Pedi a ela a tradicional permissão para ir sozinho, prometendo não me arriscar mais do que o necessário e voltar inteiro. Permissão concedida!


Dia 20 começou cedo para mim. Acordei a 1h da madrugada e lentamente fui me equipando. Este processo de ataque ao cume sempre é complicado por um motivo simples: o frio te puxa para dentro do saco de dormir com a força de um buraco negro! A preguiça sempre fala alto e a mente demora a entender que você está levantando em um horário no qual deveria estar no mais profundo sono, simplesmente para sofrer – e muito!

Amanhecer do dia, por volta das 8h da manhã, já acima dos 4.500m de altitude

Comecei a caminhar pouco antes das 2h da manhã, em um ritmo relativamente rápido, afinal, ainda estava a “apenas” 3.200m de altitude, além de saber que o dia seria longo. O objetivo seria o Cerro Rincón, com 5.380m de altitude, o que representaria uma subida de 2.180m em uma só tacada, trajeto este feito normalmente em três dias. E mais: o caminho escolhido não fora o tradicional, passando pelos acampamentos de Piedra Grande (3.600m) e El Salto (4.100m), mas sim, por um trajeto pouco utilizado, por ser errático, com pouca marcação, de terreno instável e mais vertical. Preferi esta opção, pois queria conhecer esta vertente do Cordón Del Plata, além de, em teoria, ela economizar cerca de um quilômetro na extensão total até o cume do Rincon.


Inicialmente segue-se em direção à Veguitas Superior, uma área de acampamento a meio caminho de Piedra Grande, porém em um vale mais ao norte. Depois deste ponto, faz-se uma subida interminável por acarreos (cascalhos), até atingir “La Cancha”, uma área de camping bastante remota e pouco utilizada, pois não possui água (apesar de ter neve para derreter), além de ser uma área com bastante vento.


Cerro Rincón (5.300) ao amanhecer

Deste ponto, podem ser atacados os Cerros Stepanek (4.081m) e o Adolfo Calle (4.242). Confesso que quando passei neste ponto, com o céu ainda totalmente escuro, tive vontade de abortar o objetivo principal para tentar um destes dois cumes, pois a chance de sucesso seria maior. Entretanto, após uma pequena pausa para hidratação, resolvi seguir em frente.


Aos poucos, a tênue marcação, quase inexistente em vários pontos, some de vez. Tendo isso em conta, unido a escuridão e imensidão do local, caminhar fazendo a orientação correta é primordial (principalmente para pessoas como eu, que não usam GPS). Aos poucos o dia começava a clarear e a magnitude da região também começava a se fazer presente.

Da direita para a esquerda: Rincón (5.300m), Vallecitos (5.500m), Plata (6.000) e Lomas Amarillas (5.100m)

Eu já estava subindo há pouco mais de 6 horas quando o sol finalmente (e timidamente) apontou no horizonte. Uma visão magnífica e hipnotizante! Neste ponto, às 8h da manhã, eu estava em algum local acima da crista superior do Cerro Adolfo Calle, a uma altitude próxima dos 4.500m, já sentindo o efeito do ar ficando mais rarefeito e do cansaço nas pernas. Normalmente, dentro da temporada, este trecho estaria sem neve. Entretanto, na época que estávamos, a subida era constantemente atrapalhada pela neve fofa que se depositava nas encostas íngremes.


Quando o altímetro marcou 5 mil metros de altitude, o relógio apontava para as 11h da manhã. Eu estava no chamado “Portesuelo Blanco”, uma extensa área nevada, de frente à parede final para o cume do Rincón, a meros 300 metros de altitude do topo. O que seriam 300 metros, comparados aos já subidos 1.800m? Pois bem... seriam muita coisa, ainda mais por se tratar da parte técnica, com escalada em gelo. Por estar sozinho, sem proteções, achei por bem não arriscar a parte final, haja vista que com o avançar do horário, o sol derrete o gelo e neve, causando avalanches e quedas de rocha.

Pedro Bugim pouco acima do Portezuelo Blanco (5.000m)

Em novembro de 2018, poucos meses após minha aventura, soube de um acidente fatal, no mesmo Cerro Rincón, com um escalador que o fazia também em solo, muito provavelmente por conta de deslizamento de pedras. Nestas horas, tenho certeza que as decisões tomadas na montanha devem ser criteriosas e sem muita emoção, afinal, as montanhas continuarão lá!

Me sentei à beira do abismo, apreciando toda a beleza daquela região. Este colo onde me encontrava possui uma das vias mais incríveis do Cordón Del Plata, abrangendo todo o vale e suas montanhas. Fiquei uns 30 minutos contemplando tamanha obra de arte e finalmente iniciei minha descida, por volta das 11:30h.


Decidi retornar pelo caminho tradicional, passando pelos acampamentos de El Salto e Piedra Grande, aproveitando a trilha bem demarcada e sólida deste trajeto. Para minha grata surpresa, ao chegar na metade do caminho entre El Salto e Piedra Grande, por volta das 14h, encontrei Laura, que, sozinha, decidiu fazer uma caminhada pelo local! Foi muito agradável, depois de mais de 12 horas de ralação, poder voltar em sua companhia!

Chegamos de volta à barraca em pouco tempo, por volta das 15h. Apesar de estar com o corpo completamente moído, após 13 horas de atividade, indo até 5 mil de altitude subindo pela "La Cancha" e descendo pelo caminho normal, passando por todos os acampamentos altos de Cordón del Plata, decidimos descer até o refúgio Mausy neste mesmo dia. São "apenas" dois quilômetros com 300 metros de desnível, porém após tanta ralação e com 30 quilos de equipamento nas costas, a descida pareceu interminável!


Nos rendemos ao refúgio, onde passamos a noite com o máximo de conforto possível (pelo menos, o máximo que um refúgio de montanha pode dar), sendo "resgatados" pelo Peter (transporte) na manhã seguinte, nos levando até um local conhecido com Piedras Blancas , onde ainda subi uma última (e pequena montanha) chamada Mesón de la Cruz, para finalmente pegamos ônibus com destino a Mendoza.

Pedro Bugim e Laura Petroni ao final da aventura em Cordón del Plata, em Las Veguitas (3.200m)

Nossos oito primeiros dias, resumidos acima, foram de fato uma provação. Mas ainda tínhamos tempo suficiente para mais aventuras, desta vez, corrigindo um dos principais erros cometidos: Alugamos um carro! Poderíamos chegar a praticamente qualquer lugar que desejássemos nos próximos dias... e assim o fizemos. Conquistamos vias em Arenales e em Cancha Pelada, praticamente ao lado do Aconcágua, fazendo com que a viagem desse uma repentina guinada! Mas essa história fica para um outro post... ;-)


Leia sobre as conquistas aqui!


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© 2018 por PEDRO BUGIM

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