"Me Engana Que Eu Gosto" (VIIb E1 - 20m) - Nova via no Contraforte do Pico dos Quatro

Em um dia completamente despretensioso, quando iríamos duplicar as paradas de uma outra via conquistada há quase 10 anos, nos deparamos com esta pequena, mas belíssima parede, onde resolvemos fazer uma investida...

Pedro Bugim na conquista da "Me Engana Que Eu Gosto" (VIIb E1 - 20m)

O Contraforte do Pico dos Quatro é uma parede bem extensa, com sua face voltada majoritariamente à face Oeste, e, mesmo possuindo inúmeras vias, ficando na sombra por boa parta da manhã e possuindo uma trilha ridiculamente curta, trata-se de uma parede pouco visitada.


A primeira via por lá foi conquistada ainda em 1993, por André Ilha, Cláudio Duek e Renato Souto: o "Paredão Arkanóid" (5° VIIa) com aproximadamente 150 metros. Depois disso, mais duas vias foram abertas (até hoje não consegui informações de ambas), antes que minhas atenções se voltassem ao local, por volta do ano de 2010.


Fato é que, à primeira vista, trata-se de uma parede aparentemente suja (com muita vegetação) e que acaba ficando "diminuída" frente as enormes paredes do Pico dos Quatro e da Pedra da Gávea. Entretanto, ao chegar perto, é possível perceber o enorme potencial para ótimas vias de escalada, com uma qualidade impressionante.

Alexis Robalinho, em 2010, na conquista da "Vazador de Cervas" (4° VIIb E2 D2 - 210m)

O grande incentivador para desbravar aquela parede foi meu amigo Alexis Robalinho, fiel parceiro de conquistas na época. Fizemos algumas incursões em diferentes pontos de acesso, buscando a melhor aproximação, mas após duas tentativas, todas as opções acabaram sendo bem trabalhosas. Foi então que em um dia chuvoso, fiz uma nova tentativa, com a Liane Leobons, desta vez, vindo do estacionamento da entrada da trilha da Pedra da Gávea. Bingo! Em poucos minutos chegamos à parede, com uma caminhada bem rápida e praticamente seguindo a curva de nível.


Neste mesmo dia, conquistamos a primeira das 9 vias que eu viria a conquistar por lá. Trata-se do "Paredão Paredino" (3° V E1 D1 - 175m), sendo uma das vias mais tranquilas da parede, sempre com ótima proteção em grampos de 1/2.


Em 2010, ainda no duro serviço de bater grampos "na mão", durante a conquista da "Vazador de Cervas" (4° VIIb E2 D2 - 210m)

Nesta época, ainda conquistava batendo os grampos "na mão", o que representava uma tarefa hercúlea a conquista de vias mais longas e com alta graduação. Mesmo assim, as vias foram surgindo, com cerca de três investidas em cada. Na sequência, em conjunto com o Alexis, conquistamos a que seria talvez uma das vias mais bonitas que já abri até hoje: a "Vazador de Cervas" (4° VIIb E2 D2 - 210m), além da que também considero uma das mais complexas tecnicamente: a "Canaleta do Mal" (6° VIIIa E2 D2 - 185m).


Além das vias mais complexas, a parede proporcionou boas linhas com lances menos técnicos, como a "Quebra Galho" (4° IVsup E1 D1 - 110m) ou a "Show de Bola" (4° Vsup E2/E3 D1 - 160m). Vias em geral com boa proteção nos lances mais complexos e com uma rocha de grande abrasividade, conferindo ao escalador uma aderência incrivelmente firme.


Uma curiosidade sobre o local, foi o fato de termos (eu e Alexis) comprado nossa primeira furadeira em conjunto, na mesma época em que conquistávamos por lá. Isso gerou a via "Deixa que eu Furo" (4° VI E2 D1 - 160m), na qual ficávamos disputando para ver que seguiria na ponta para bater os grampos!

Mas voltando à atualidade... final de semana passado, no dia 13/07/2019, retornei à parede com a Laura para repetir a "Paredino", justamente para duplicar suas paradas. Em menos de 10 minutos após deixar o carro, já estávamos na confortável base da via e rapidamente iniciei a escalada. Cheguei à P1 com tranquilidade e Laura veio na mesma velocidade. Os primeiros 50 metros são bem gostosos, muito bem protegidos e foram feitos na sombra. Mas deste ponto em diante, acabei errando feio ao passar por uma ilha de vegetação, seguindo reto para cima, ao invés de tocar para a direita. Neste processo, perdemos tanto tempo, que desistimos de prosseguir.


Na volta, bem decepcionado, confesso, acabamos percebendo em uma parede bem limpa, à esquerda da base da "Paredino", que surgiu com o deslizamento de terra e árvores. Apesar de pequena, possuía uma barriga bem proeminente e convidativa. Como estávamos com todo equipamento de conquista, resolvemos fazer uma investida.


À primeira vista, parecia uma linha bem fácil, com apenas um ponto mais complexo. Ledo engano: mal entrei na parede, percebi que as agarras se resumiam a micro cristais, além de possuir muitos lances em completa aderência. Na sequência, mais alguns lances verticais em cristaleiras até atingir a tal barriga. E que barriga!


Laura Petroni na primeira enfiada da "Paredino" (3° V E1 D1 - 175m)

Passei um bom tempo ensaiando diferentes formas para tentar passar daquele ponto, mas o peso do equipamento deixava o trabalho mais penoso. Foram várias tentativas em diferentes posições, até que finalmente, com um pé esquerdo bem alto, acima da linha da cintura, mão esquerda em um micro cristal (que furava o dedo) e o dedão da mão direita empurrando outro cristal pequeno, o lance saiu! Ufa!!!


Mas não havia acabado: acima da barriga, a parede continua vertical e em lances de pura aderência. Apenas alguns metros acima, a verticalidade cai, agarras aparecem e a barreira de vegetação chega. Fim da ralação e mais uma belíssima linha conquistada.


Pelo fato de acharmos que seria uma via beeeeem mais simples, acabamos batizando-a de "Me Engana Que Eu Gosto" (VIIb E1 - 20m). Ela foi toda protegida com chapeletas rapeláveis (PinGo), com uma parada dupla no topo, em grampos de 1/2 de aço carbono.


Agradecimentos à Laura, pela paciência enquanto eu xingava de todas as formas o lance que demorou a sair (rs...) e pela companhia sempre tão agradável!


Todas as vias mencionadas aqui podem ser encontradas na Croquiteca do Bugim.

Croqui da via "Me Engana Que Eu Gosto" (VIIb E1 - 20m)

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© 2018 por PEDRO BUGIM

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