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O Mirante do Boqueirão: Novo setor em Piratininga

Acesso rápido, fácil, com inúmeras vias de diferentes estilos e graduações, além de possuir uma vista deslumbrante. Assim pode ser definido o novo setor de escaladas do Mirante do Boqueirão, em Piratininga - Niterói / RJ.

Vista aérea do Mirante do Boqueirão, com as suas faces sul e sudoeste
Vista aérea do Mirante do Boqueirão, com as suas faces sul e sudoeste

No final de semana dos dias 22 e 23 de março de 2025, eu e minha esposa (Laura), resolvemos fazer algo "fora da caixa" para a nossa realidade da época, já que o nosso filho Luca tinha apenas 5 meses. Para tanto, resolvemos alugar uma casa em Piratinga, na tentativa de sair um pouco da nossa rotina parental. O local escolhido não foi por acaso: além de ser relativamente próximo de nossa residência, é também um lugar calmo e bem próximo ao setor de escaladas da Piscina do Zé Mondrongo, o qual eu havia aberto há pouco tempo, me fazendo ficar familiarizado e encantado com a redondeza.


Fato é que passamos um final de semana bastante agradável, bem longe das pedras e montanhas, mas muito importante para relaxarmos um pouco. Mas a parte que mais me marcou nesta pequena "viagem", foi quando visitamos o Espaço Eco Ciência, um museu recém reaberto, muito bonito, moderno e com entrada gratuita. Mas por mais interessante que fosse o museu, na verdade, o que me chamou a atenção foi a BELÍSSIMA parede situada à frente dele, na margem contrária à lagoa.

Pedro Bugim e Luca, no dia da "descoberta" da parede do Mirante do Boqueirão
Pedro Bugim e Luca, no dia da "descoberta" da parede do Mirante do Boqueirão

Imediatamente, comecei a traçar linhas imaginárias e planejar uma forma de acesso, haja vista ter a lagoa que impede o acesso desde onde estávamos, além de aparentemente ter uma vegetação densa e bastante vertical para chegar às bases. O que mais me chamou a atenção foi uma canaleta linda, perfeita, que ia desde a base, bem rente à água, até o cume. Prometi a mim mesmo que, se não houvesse via por lá, aquela canaleta seria o principal objetivo da parede!


Pois bem... voltamos de "viagem" na segunda feira bem cedo e aproveitando que estávamos com dois carros, Laura e Luca voltaram para o Rio de Janeiro, enquanto eu fui em busca de um acesso à parede. Com ajuda do google, descobri que havia uma trilha até o cume, bem fácil, por sinal, que se inicia em um bairro conhecido como "Recanto da Lagoa". O acesso de dá pela Rua Estrela, podendo estacionar ao final dela, de onde é necessário caminhar cerca de 5 minutos por uma ciclovia de estrada de chão. Ao final, olhando à direita, há uma trilha bem definida, iniciada em um pequeno lance de costão (com vegetação densa na lateral) e depois, seguindo de forma suave até o belo cume. A atividade total, do carro ao cume, não leva mais que 20 minutos.

Um dos poucos companheiros de conquista, no cume do Mirante do Boqueirão
Um dos poucos companheiros de conquista, no cume do Mirante do Boqueirão

Nesta exploração inicial, busquei mapear os desníveis, pontos de menor resistência da vegetação, fazer fotos de todas as paredes (com o drone) e me certificar que realmente não havia uma única via de escalada estabelecida no local. Felicidade máxima! Com a missão cumprida, voltei para casa e o projeto ficou "adormecido" por dois meses, já que neste meio tempo eu estava realizando uma série de conquistas com o querido Tonico Magalhães, no Recreio dos Bandeirantes (vide artigo completo aqui). Neste meio tempo, também aproveitei para conquistar duas curtas, porém interessantes vias pouco antes do Mirante do Boqueirão, em um setor ao lado da Rua Estrela, logo no início (ver sobre a Falésia do Recanto da Lagoa aqui).


Foi então que no dia 30 de maio, finalmente consegui colocar em prática o início das explorações de conquista. Como estava com filho bem pequeno, o tempo era curto e os horários, os mais estranhos possíveis. Na maioria das investidas, durante dias de semana, eu saía de casa às 4h da manhã, chegando ao início da trilha por volta das 4:40h, e, ainda no escuro, começava a atividade, para que tudo finalizasse até no máximo as 8:30h, chegando em casa novamente por volta das 9:30h (o trânsito piora bastante depois das 7h). Obviamente, este modelo de exploração tornava quase impossível encontrar um parceiro para a empreitada, de modo que quase todas as investidas foram feitas em solitário, exceto por uma, na qual fui acompanhado pelo meu outro filho, João Pedro.

Vista magnífica, antes do nascer do sol. Uma das vantagem em ir de madrugada ao Mirante do Boqueirão
Vista magnífica, antes do nascer do sol. Uma das vantagem em ir de madrugada ao Mirante do Boqueirão

Na investida inicial, o objetivo principal era estudar o local com maiores detalhes, além de estabelecer uma forma de acesso à base da parede principal (face sul). Apesar de trilha ao cume ser muito agradável, rápida e descomplicada, o acesso à esta face foi um desafio, já que o terreno é bem vertical e há muita vegetação com espinhos. Além disso, fui descobrir que em alguns trechos havia uma serie de casas de vespa, rendendo muitas, mas muitas picadas ao longo das investidas, até que fosse possível consolidar uma boa trilha que evitasse todos estes contratempos.


De todo modo, nesta primeira aventura, foi possível chegar à base, com a necessidade de um pequeno rapel em um trecho realmente impossível de passar caminhando. A parte positiva é que este trecho acabou se tornando a primeira via do local, carinhosamente batizada de "Vespas Gigantes" (IV E1 - 20m), sendo a sua metade inferior, justamente o trecho de rapel para finalmente acessar a base da parede principal.


Download do tracklog atualizado de acesso às bases das vias: Fazer Download


Pedro Bugim durante a conquista em solitário da "Vespas Gigantes", primeira via e linha de acesso às bases da face sul
Pedro Bugim durante a conquista em solitário da "Vespas Gigantes", primeira via e linha de acesso às bases da face sul

Como dito anteriormente, na época, eu estava realizando uma série de conquistas com o Tonico e, comentando sobre este novo setor, combinamos de conquistar a bonita canaleta da parede principal juntos. O problema é que ainda estávamos com diversos "trabalhos" para o lado da Zona Oeste do RJ, além do Tonico morar em BH, o que reduzia muito o nosso tempo nas montanhas. Assim sendo, passei a visitar o Mirante do Boqueirão sistematicamente, melhorando a trilha de acesso à base, criando a trilha de acesso à face Norte e conquistando as linhas adjacentes, mantendo a canaleta intocada, por conta do nosso combinado.


Assim, foram surgindo as belíssimas "A Noite dos Mortos Vivos" (IVsup E1 - 60m), a "A Hora do Pesadelo" (VI E1 - 60m) e a "Efeito Borboleta" (IVsup E1 - 50m), na parede principal. Na porção sudoeste da parede, começaram a aparecer as vias com maior complexidade, com destaque para a "The Walking Dead" (VI E1 - 25m) - esta conquistada com o meu filho João Pedro - e a incrível "Brinquedo Assassino" (VIIa E1 - 30m). Nesta face, as vias são predominantemente em agarras, com alguns lances em aderência e cristais, contando até com uma pequena chaminé no início da "Brinquedo Assassino".

O grupo do carnaval, no cume do Pico do Muquém - Carvalhos / MG
Pedro Bugim e João Pedro no topo da face sudoeste, após a conquista da "Walking Dead"

Já na face norte, as surpresas positivas também foram surgindo, com vias mais curtas, porém em uma grande diversidade de estilos, com agarras, cristais, aderência... e fendas! Sim, fendas perfeitas para vias em móvel!


Destacam-se as vias "A Entidade" (VIIb - E1 - 27m), pelo seu grau técnico elevado, a "Sexta Feira 13" (V E1 - 20m), com um lance levemente negativo em grandes agarras espetacular, a "O Silêncio dos Inocentes" (III E1 - 20m), por ser uma via mais simples e ótima para quem está começando a guiar e a "Sonâmbulos" (IV E1 - 25m - Mista), que conta com uma fenda frontal simplesmente perfeita!

Linha das vias na face sul e sudoeste
Linha das vias na face sul e sudoeste

No total, foram 14 investidas, para que as 21 vias (incluindo uma variante) fossem conquistadas, em um período de exatos 6 meses (primeira investida no dia 30/05 e a última, no dia 30/11/2025). E em quase todas, eu passava pela base da canaleta, subindo alguns metros, limpando o início, além de já ter planejado a parte superior, criando a trilha de acesso ao cume, deixando o terreno nas condições perfeitas para quando o Tonico pudesse me acompanhar, até porque o acesso à via "A Colheita Maldita" havia sido feito pelos fáceis lances iniciais da canaleta, sem colocar proteções, já que a intenção era fazê-lo durante a conquista dela propriamente dita.

Croqui das vias da face sul do Mirante do Boqueirão
Croqui das vias da face sul do Mirante do Boqueirão

Pois bem..... Banho de água fria é eufemismo para o que se sucedeu. Finalmente, após diversas idas e vindas, no dia 29 de novembro, lá fomos nós, eu e Tonico, munidos de chapas até os dentes, para finalmente matar esta pendência. Chegamos cedo à montanha e fizemos a trilha até cume. Apreciamos a bela vista do sol nascendo e nos equipamos com todo entusiasmo do mundo! Porém, ao chegar na base, fiquei completamente confuso ao ver algumas chapeletas na direção da canaleta. De início, pensei estar vendo alguma outra linha que eu já havia conquistado, mas analisando friamente, me dei conta que em determinado momento, alguém havia ido lá e concretizado a linha...


Enfim, a linha estava lá,

Croqui das vias da face sudoeste do Mirante do Boqueirão
Croqui das vias da face sudoeste do Mirante do Boqueirão

não havia proteções e realmente era convidativa demais, ainda mais com a sua primeira metade já limpa, com as trilhas de acesso e trilha para chegada ao cume prontas... Então, mesmo com tudo isso, não há que se falar em falta de ética. Azarados fomos nós, que deixamos esta oportunidade escapar, mas me orgulho de não ter "mijado", colocando alguma proteção no início para "reservar" a linha. Ética sempre em primeiro lugar e vida que segue.


Linha das vias da face Norte do Mirante do Boqueirão
Linha das vias da face Norte do Mirante do Boqueirão

Após este episódio, voltei sozinho no dia seguinte para então fazer de fato a última linha (além da canaleta) que eu havia traçado, começando pouco à esquerda dela, cruzando um pequeno trecho em comum e seguindo por uma "barriga" à direita, finalizando assim os trabalhos no dia 30 de novembro, com a conquista da "Os Estranhos" (3º IV E1 D1 - 70m).


O nome das vias serem dados em alusão a filmes de terror não possui um motivo específico... começou com o "Vespas Gigantes"... depois, com o João Pedro, que estava bem cansado no dia, demos o nome "Walking Dead"... e assim os nomes foram surgindo com este padrão tosco, mas que no final, ficou interessante. rs...

Croqui das vias da face norte do Mirante do Boqueirão
Croqui das vias da face norte do Mirante do Boqueirão

Por fim, fica aqui a dica para quem quer conhecer um local novo, de fácil acesso e diversas vias de qualidade, todas equipadas com paradas duplas e parados intermediárias para o rapel. Como as vias são relativamente curtas, é possível escalar uma boa quantidade delas no mesmo dia, além de ser um local que possibilita ótimas invasões!

 
 
 

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