Peru Arriba - Conquitas em rocha e Alta Montanha

Atualizado: 5 de Set de 2018

Novas conquistas no Perú, além da ascensão a Agulha Ishinca (5.530m), na região de Huaraz.

Pedro Bugim no cume da Agulha Ishinca (5.530m)

Quem disse uma boa viagem precede de um bom planejamento?


Em minhas excursões pregressas, costumava alocar um bom período pesquisando sobre o lugar que iria, a quantidade de mantimentos, os valores de transportes, hospedagem, tempo gasto em cada trâmite etc. Mas desta vez, todo tempo livre que eu tinha, foi destinado à organização da Abertura da Temporada 2018. Assim sendo, uma semana após o evento, lá estávamos eu e Laura embarcando em um avião com destino ao Peru, com 80 quilos de equipamentos e nem um pingo de planejamento. Sabíamos apenas que gostaríamos de conhecer Huaráz.


Pisamos em Lima, capital do Peru, no dia 19 de maio de 2018, às 9h. Imediatamente, fizemos o câmbio de alguns poucos reais (a moeda local é o Sole) e contratamos um táxi que nos levaria à principal rodoviária da cidade. Lá chegando, tivemos uma surpresa ingrata: não havia casa de câmbio que aceitasse a nossa moeda! Além do montante em reais, estávamos com pouco mais de 100 dólares para trocar e pouquíssimos Soles que havíamos adquirido no aeroporto. Bom, foi o suficiente para conseguirmos um ônibus com destino a Huaráz, a cerca de 8 horas de onde estávamos.

Curtindo um pouco a cidade....

Chegamos ao nosso destino por volta das 22h e rapidamente encontramos um hostel para passar a noite (bem tosco por sinal) e em seguida saímos para jantar (em um restaurante mais tosco ainda, mas era o que tínhamos para a noite). Fomos dormir tarde, exaustos pelo dia longo de viagens.


Em nosso primeiro dia por lá, gastamos a manhã conhecendo o centro da cidade, aproveitando para entrar em todas as agências de turismo de aventura, em busca de informações e dicas. Neste ponto, fomos muito felizes, pois a receptividade de todos que conversamos foi além das expectativas. Conseguimos um norte para nossas ambições e ainda aproveitamos o resto do dia para conhecer um point de escaladas a meros 10 minutos do centro, conhecido como Los Olivos.


Escalando em Los Olivos

Los Olivos possui cerca de 50 vias, entre 5º e 8º grau, todas com no máximo 30 metros e predominantemente em rocha conglomerada. Demoramos um pouco para começar a escalar, pois as opções eram muitas, desviando nossa atenção sempre que olhávamos uma nova linha. Finalmente escolhemos uma via relativamente tranquila para começar, algo na casa do 5ºsup, iniciando em um leve negativo, mas com agarras generosas e evoluindo para um setor bem vertical, ainda com ótimas agarras e lances bem prazerosos. Mas quando tudo parecia estar perfeito, enquanto Laura fazia sua ascensão, mais uma surpresa: fomos pegos por uma tempestade repentina de granizo! Rapidamente recolhemos nosso equipamento e voltamos para o hostel, completamente encharcados e gelados.

Laura escalando em Los Olivos, pouco antes da tempestade de granizo

Conquistas em Inca Wakanka

O segundo dia na cidade foi basicamente para a procura de alguma casa de câmbio que aceitasse a troca de reais, compra de mantimentos e planejamento dos próximos passos. Sim, houve um pouco de planejamento, embora “em cima do laço”.

Como estávamos com todo equipamento de escalada e conquista, além do equipamento de alta montanha, resolvemos explorar uma região conhecida como Inca Wakanka. Trata-se de uma região rochosa a cerca de 80 km de Huaráz, que começou a receber vias de escalada a menos de 3 anos, possuindo um potencial enorme, que nem de longe começou a ser arranhado.

Laura no início da trilha que leva às paredes de Inca Wakanka

Iniciamos nossa jornada às 6h da manhã, com um transporte alugado, chegando ao destino por volta das 8:30h. Tirando o fato do carro ter atolado próximo à base das rochas, o trajeto foi tranquilo e sempre com uma vista de tirar o fôlego.

Nos dirigimos à parte baixa do conjunto, conhecido como “La Liberada”, onde tivemos o prazer de conquistar a segunda via deste setor, a qual chamamos de “La Chica Linda” (V E2 – 35m). Via muito interessante, com lances em pequenas agarras e muito equilíbrio.

Na sequência, fomos à parte alta de Inca Wakanca, já a cerca de 4.200m de altitude, no setor conhecido como “Rupestre” (por possuir um incrível sítio arqueológico ao lado), onde conquistamos a “Peru Arriba” (VI E2 – 25m), uma via que mescla agarras, diedro, oposição e aderência. Ambas foram conquistadas completamente em proteções fixas (chapeletas rapeláveis) e com parada dupla no topo.


Croqui da via "La Chica Linda" (V E1/E2 - 40m)

Croqui da via "Peru Arriba" (VI E1/E2 - 25m)

Quebrada ishinca

Após a etapa das conquistas em rocha, decidimos seguir viagem em áreas um pouco mais altas e fomos no dia seguinte para a Quebrada Ishinca, um vale a mais de 4 mil metros de altitude, rodeado por belíssimas montanhas entre 5 e 6 mil metros. Para tal, contratamos um transporte que nos levou até Pashpa, a 3.450m. Deste ponto em diante, caminhada de 14 quilômetros, com quase mil metros de desnível, até o acampamento base, a 4.400m de altitude. Dia bastante cansativo e longo, mas com uma paisagem tão incrível, que qualquer cansaço se esvaía de nossos corpos com uma mera olhada ao redor.

Início da caminhada de 14Km à Quebrada ishinca, onde montamos nosso campo base

Tínhamos como objetivo principal, o Tocllaraju, montanha com 6.034m de altitude, que nos tomaria cerca de 3 dias de subida. Entretanto, chegando ao campo base, tivemos a informação que há um tempo considerável, não havia relatos de excursões que tivessem chegado ao cume, por estarmos fora da temporada ideal, com excesso de neve no caminho e condições muito extremas. Com este banho de água fria, voltamos nossas atenções para duas outras montanhas clássicas da região: o Urus (5.423m) e a Agulha Ishinca (5.530m), ambas feitas em um único (e longo) dia cada.

Nosso ataque ao Urus foi no dia 24 de maio. Acordamos uma hora da manhã, com temperatura na casa dos 15ºC negativos, mas sem vento algum e um céu completamente estrelado, o que nos deu bastante ânimo. Iniciamos a caminhada às 2h, em passos relativamente lentos, devido à enorme inclinação do terreno. Infelizmente, por não conhecermos o trajeto, acabamos pegando uma vertente mais inclinada à esquerda da trilha normal, o que nos consumiu uma dose de energia que faria falta no final...

Laura em uma parte técnica da variante do Urus

Ao nascer do sol, estávamos à base do grande glaciar do cume, a cerca de 5 mil metros de altitude. Neste ponto, a trilha segue pela direita, contornando um gigantesco bloco de pedra. Mas estávamos focados em pegar o máximo de gelo possível, escolhendo uma variante pouco utilizada, que contorna pela esquerda deste mesmo bloco. À partir deste ponto, calçamos nossos crampons (ganchos para o solado das botas duplas), sacamos nossos piolets (piquetas de gelo) e nos encordamos, pois esta variante compreendia lances técnicos de escalada em neve. Os primeiros 120 metros são feitos em terreno com aproximadamente 65º de inclinação, em neve bem fofa, pela pouca frequência e pela época que fomos. Depois, o terreno ganha um pouco mais de verticalidade, onde começamos a proteger os lances com estacas de neve. Como não havia marcação alguma do trajeto, fui tentando escolher os melhores pontos de subida e de parada, pegando uma enorme diagonal em determinado momento, que nos levou a um beco sem saída, rodeado por paredes rochosas bem verticais e lisas. Decidimos então descer alguns lances delicados mesclando rocha e gelo fino, até um ponto em que encontramos novamente a trilha principal, mais à direita e muito abaixo do ponto mais alto que atingimos.


Apesar de extremamente prazerosa, esta operação nos fez perder cerca de 2 horas... Retomamos a subida pela trilha normal já bem desgastados, chegando aos 5.300m de altitude por volta do meio dia. Era nosso deadline. O cume estava a meros 150 metros verticais e ao alcance de nossos olhos. Mas estávamos perigosamente atrasados e com os corpos moídos. A decisão de dar meia volta foi bem difícil, mas sabíamos que era a escolha certa a fazer.

Laura a cerca de 5.200m de altitude, no Urus

A descida foi penosa e lenta. Chegamos de volta ao acampamento por volta das 16h, após 14 horas de esforço ininterrupto. Independente da sensação de “e se...” por estarmos tão próximos ao cume, estávamos também realizados, com a escalada daquela variante tão impressionante e pouco repetida!


Tiramos um dia de descanso e no dia 26, reuni forças para tentar a montanha que dá nome à região que estávamos: a Agulha Ishinca. Para esta montanha, a Laura optou por ficar no campo base, por se tratar de uma escalada um pouco mais técnica e mais exigente. Assim sendo, acordei novamente por volta de uma da manhã, organizei meus equipamentos, comi um miojo e, sozinho, iniciei minha jornada às 2h da manhã.

A Ishinca inicia em uma subida extensa, em zigue-zague, até atingir um grande planalto, com duas lagoas belíssimas. Deste ponto em diante, entra-se no glaciar, onde faz-se necessário o uso de crampons e piolets. A subida do glaciar já começa forte, com 60º de inclinação e assim permanece por horas. Ao clarear o dia, eu já havia passado este cansativo início do glaciar e me encontrava na crista que leva ao cume. Neste ponto, há uma enorme greta que deve ser cruzada em uma frágil ponte de gelo, seguida de uma parede de cerca de 70º de inclinação. Foi o ponto mais estressante da subida, pois qualquer erro resultaria em uma queda dentro de um buraco sem fim.

Vencendo o crux da Ishinca... Tenso passar por esta parte sem cordas!

Vencido o “crux”, faltavam ainda os lances finais, também em terreno mais íngreme, porém com gelo mais consistente, pela face oeste da montanha. Pouco a pouco o cume foi ficando mais próximo, até que às 7h em ponto, não havia mais nada a subir. Cume!!!

Fiquei um bom tempo sentado refletindo sobre a escalada, curtindo a bela paisagem e saboreando o som do vento e, eventualmente, o característico som de uma avalanche ou outra nas redondezas. Estar em um cume a mais de 5.500m de altitude sozinho é uma sensação indescritível!


Cume da Ishinca (5.530m)

Iniciei a descida pouco antes das 7:30h, desescalando as partes técnicas com toda atenção do mundo, mas mantendo um ritmo forte, pois não queria passar pela ponte de gelo com sol, afinal, sem um parceiro para te assegurar, uma queda não seria opção. E o retorno não poderia ter sido melhor. Cheguei de volta ao acampamento às 9:50h da manhã, tendo escalado a Ishinca em menos de 8 horas!

A Agulha ishinca, com seus 5.530m

Laguna 69

Voltamos para Huaráz no dia 27, ainda com dois três livres. E claro que não ficamos parados! No primeiro dia livre, tentamos fazer um passeio tranquilo e mais turístico. Consultamos algumas agências em Huaráz e escolhemos conhecer a famosa Laguna 69 (nome sugestivo, heim?!). Mas mal sabíamos que tratava-se de uma caminhada de 14Km (ida e volta), com 700m de desnível, saindo de 3.900m, chegando a 4.600m de altitude! Ok... a trilha é bem amigável e o lugar é mágico, mas estávamos moídos das atividades anteriores, o que tornou o “passeio” um pouco mais desgastante. A sorte é que, por se tratar de um lugar bem frio, a cerveja que foi na mochila estava estupidamente perfeita!

A belíssima Laguna 69

Conquista em Hatun Machai

Após mais um dia de descanso, no dia 30, fomos a um local chamado Hatun Machai, que provavelmente representa o local mais famoso de escaladas esportivas da região. Trata-se de um conjunto rochoso bem amplo, com centenas de vias, todas em proteção fixa, de baixa exposição e com graduações entre 4º e 9º grau.

Iniciando a conquista da "Hakuna Matata" (VI E2 - 30m - Mista)

Como ainda tínhamos 6 chapeletas, resolvemos inventar moda e conquistamos mais uma via no País! Curiosamente, foi a primeira via de Hatun Machai que utiliza material móvel. Trata-se da “Hakuna Matata” (VI E2 – 30m), que segue por uma bela aresta em seu início e evolui para lances levemente negativos em ótimas agarras e fendas, chegando no pequeno cume da agulha em que se situa. Além de quatro chapas intermediárias e parada dupla no topo, a via demanda ainda alguns friends diversos (dos pequenos aos grandes) e stoppers.


Croqui da "Hakuna Matata" (VI E2 - 30m - Mista)

Mas como tudo acaba, no dia seguinte já estávamos retornando ao Brasil. Entretanto, voltamos com a sensação de dever cumprido, mesmo tendo apenas 12 dias para as aventuras. E esse pouco tempo já foi suficiente para nos apaixonarmos pelo Peru (sem trocadilhos, por favor! Rs...)!!!

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© 2018 por PEDRO BUGIM

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