"No, Woman, No Cry" e "Intempéries" - Novas vias na Pedra da Sebastiana

Após a conquista da "FEMERJ 20", eu e Laura voltamos ao Vale dos Frades (Teresópolis) para mais algumas explorações, que resultaram em duas novas e bonitas vias na incrível Pedra da Sebastiana.

Laura Petroni na terceira enfiada da "Mari do Metrô" (3° IV E2 D1 - 185m)
Laura Petroni na incrível canaleta da "No, Woman, No Cry", com o Vale dos Frades ao fundo

Em julho de 2020, eu e Laura Petroni conquistamos a "FEMERJ 20", na face nordeste da Pedra da Sebastiana, Vale dos Frades, em homenagem aos 20 anos da Federação de Esportes de Montanha do Estado do Rio de Janeiro, que acabaria por se tornar uma opção bastante frequentada na região, não apenas pela beleza dos lances, mas também, pela proteção justa, acesso simples e vista estonteante.

O acesso às bases se dá por estrada de terra e pelo pasto, bem óbvio
O acesso às bases se dá por estrada de terra e pelo pasto, bem óbvio

Por todos estes pontos, acabamos motivados em retornar ao local, em busca de novas linhas, haja vista o tamanho da parede e as inúmeras possibilidades existentes. Assim sendo, fizemos uma visita de reconhecimento, no dia 17 de julho, subindo a serra desde o Rio de Janeiro, bem cedinho. Estacionamos o carro por volta das 8h da manhã, organizamos nosso equipamento e fomos em direção à parede, inicialmente pela estrada de terra e, depois, pegando um pasto bastante óbvio até a base, levando cerca de 1 hora no trajeto.


Nosso alvo, neste dia, seria uma linha na lateral direita da parede, que parecia bem fácil e curta, olhando à distância - e realmente era o que precisávamos para o dia, já que estávamos relativamente "parados", sem escalar nada muito complexo há tempos. Além disso, teríamos que retornar ao Rio de Janeiro no mesmo dia, para outro compromisso, então, o tempo era diminuto.

Laura Petroni na P1 da "Intempéries" (D1 3° IVsup E2/E3 - 165m), com a canaleta da segunda enfiada
Laura Petroni na P1 da "Intempéries" (D1 3° IVsup E2/E3 - 165m), com a canaleta da segunda enfiada

Após avaliar as opções e nos equiparmos, iniciamos a conquista em um costão fácil, que da base parecia não ter mais que 30 metros, mas se mostrou bem mais longo, ocupando toda a primeira enfiada de 60 metros, sempre em lances na casa do 2° grau. A segunda enfiada inicia um pouco menos simples e vai ganhando verticalidade à medida que subimos, seguindo uma canaleta bem escorregadia, apesar de extremamente limpa! Na segunda metade desta enfiada estão concentrados os lances mais complexos da via, graduados em 4°sup, feitos em aderência, cruzando a canaleta da direita para a esquerda, subindo mais alguns metros e alcançando a segunda parada.

Croqui da via "Intempéries" (D1 3° IVsup E2/E3 - 165m)
Croqui da via "Intempéries" (D1 3° IVsup E2/E3 - 165m)

A terceira enfiada perde inclinação e o grau volta a diminuir, ficando na casa do terceiro grau e atingindo a terceira e última parada, logo abaixo de um teto com forte vegetação. Rapelamos bem rápido e ficamos impressionados com o tamanho da via, pois imaginávamos algo com uma enfiada e meia, apenas. Além disso, a segunda enfiada é de fato muito interessante e delicada em alguns pontos, apesar da proteção ser justa de acordo com o grau dos lances. Tivemos cuidado para proteger ao menos a cada 15 metros, mesmo nos lances mais simples e duplicar as paradas a cada 30 metros, permitindo o rapel com uma única corda de 60 metros. Assim nasceu a via "Intempéries", graduada em D1 3° IVsup E2/E3 - 165m.

Pouco tempo depois, no dia 06/08/2022, voltamos para investirmos em algo mais longo e trabalhoso. Para tal, a estratégia foi um pouco diferente: subimos a serra no dia anterior, à noite, estacionamos no local de sempre e dormimos no próprio carro, nos fazendo ganhar tempo e economizar horas de direção, no dia da conquista. A noite foi super agradável: rebaixamos os bancos traseiros do veículo e montamos os isolantes e sacos de dormir na parte traseira, curiosamente, mais confortável e espaçoso que em uma barraca para duas pessoas. O céu estava estrelado e o silêncio, magnífico!

Pedro Bugim e Laura Petroni em seu "bivaque" no carro
Pedro Bugim e Laura Petroni em seu "bivaque" no carro

Acordamos relativamente tarde, por volta das 7:30h e começamos a nossa jornada às 8h da manhã. Novamente, cerca de 1 hora até a base da parede, devido ao peso dos equipamentos, que teimava em incomodar os ombros. Nosso alvo seria uma canaleta impressionante, que segue quase da base da montanha, ao cume. Achei estranho não haver nenhuma via naquela linha, que me parecia uma das mais óbvias da parede, mas, chegando à base, percebi o que poderia ser um dos motivos: há uma longa e proeminente barriga antes de atingir a canaleta, o que tornaria a tarefa bem complexa.


Independentemente deste fato, decidimos iniciar nossos trabalhos, por volta das 9:30h, conquistando com certa velocidade a primeira enfiada, em lances relativamente tranquilos de até 3°sup, mesclando aderência e alguns abaulados, chagando a um confortável platô, logo abaixo da temida barriga.

Pedro Bugim na conquista do artificial fixo da "No, Woman, No Cry" (D3 4° VI A1 E2 - 405m)
Pedro Bugim na conquista do artificial fixo da "No, Woman, No Cry" (D3 4° VI A1 E2 - 405m)

A saída da segunda enfiada é feita em lances relativamente delicados em aderência, até encontrar uma porção super vertical e lisa, que impossibilitou qualquer chance de subir escalando em livre (e não foi falta de tentativas!). Assim sendo, iniciei o cansativo trabalho de "artificializar" os metros seguintes, com 8 chapeletas em sequência, até que a parede perdesse inclinação e voltasse a propiciar a escalada em livre. Alguns metros mais, já em terreno mais tranquilo, estabelecemos a P2 em outro bom platô, já de cara com a canaleta, alvo desta investida.


Apesar de termos gasto um precioso tempo com os lances em artificial fixo, ainda estávamos com a empolgação nas nuvens, sobretudo, quando de fato entramos na canaleta, que se mostrou mais alucinante do que havíamos imaginado à distância. Com isso, "emburaquei" na terceira enfiada, feita em pouco menos de 10 minutos, sobretudo pelos lances não serem complicados. Laura se juntou a mim na P3 também de forma rápida e tranquila.

Pedro Bugim conquistando o crux da "No, Woman, No Cry" (D3 4° VI A1 E2 - 405m)
Pedro Bugim conquistando o crux da "No, Woman, No Cry" (D3 4° VI A1 E2 - 405m)

Como esta seria uma investida de reconhecimento, apenas para iniciar o projeto, levamos pouco equipamento, pouca água e nada para comer. Sabíamos que não seria possível progredir muito, mas juntamos as últimas chapeletas que tínhamos e ainda encontramos ânimo para abrir a quarta enfiada, ainda utilizando integralmente a belíssima canaleta que se inicia na P2. Esta enfiada já ganha certa verticalidade e apresenta alguns lances de 4° grau, mostrando que as enfiadas seguintes seriam mais trabalhosas. Exatamente às 12:30h, posicionei a P4 e iniciei o procedimento de rapel, chegando à base, com a Laura, às 13:30h. Durante a descida, aproveitei para intermediar alguns lances que haviam ficado bem longos, deixando tudo em um padrão E2.

Laura Petroni na quinta enfiada da "No, Woman, No Cry" (D3 4° VI A1 E2 - 405m) - Detalhe para a incrível canaleta que acompanha quase toda a via
Laura Petroni na quinta enfiada da "No, Woman, No Cry" (D3 4° VI A1 E2 - 405m) - Detalhe para a incrível canaleta que acompanha quase toda a via

Não tardamos em retornar para finalizar o serviço, o que foi feito no dia 27/08/2022, utilizando a mesma estratégia da investida anterior, passando a noite no carro, de sexta para sábado. O problema é que, dessa vez, fomos dormir por volta das 2h da madrugada, para acordar às 6h. Ou seja, pouquíssimo tempo de sono e corpo moído devido a uma semana estafante de trabalho. E para piorar, ao longo da caminhada de acesso à base, vimos um bezerro caído, sendo bicado por vários urubus... só que ao passar mais próximos, percebemos que o animal ainda estava vivo! Foi um susto enorme e a cena comoveu a Laura, a ponto de fazê-la cair aos prantos. Sem muito o que fazer, tentamos nos recompor e continuamos a jornada, apesar do abalo.


Nos equipamos com tranquilidade e entramos na via por volta das 8h. Às 9:45h, já estávamos na P4, ponto alcançado na investida anterior, com todo o peso do equipamento que seria utilizado no resto da via. A canaleta, neste ponto, ganha boa verticalidade e oferece uma resistência bem maior na progressão dos lances. A quinta enfiada, definitivamente, representa o crux da via, começando com passadas bem delicadas em pequenas agarras e aderência, graduadas em 6° grau.


Após as passadas iniciais da quinta enfiada, os lances vão gradativamente baixando de dificuldade, até uma última barriga, logo antes da quinta parada, esta, feita em um platô sensacional e com boa visão da enfiada seguinte.

Pedro Bugim conquistando a sexta enfiada da "No, Woman, No Cry" (D3 4° VI A1 E2 - 405m)
Pedro Bugim conquistando a sexta enfiada da "No, Woman, No Cry" (D3 4° VI A1 E2 - 405m)

A sexta enfiada inicia em lances bem fáceis, mesclando platôs e costões, até que, na sua metade, a vegetação toma conta da canaleta, nos obrigando a fazer um desvio para a direita. Neste ponto, os lances voltam a ficar delicados, com graduação constante entre 4°sup e 5°, sempre em aderência, até retornar à canaleta, após a vegetação sumir. O final da enfiada é feito utilizando parte da canaleta e uma bela cristaleira à esquerda, em lances simplesmente alucinantes!


À partir da P6, a parede perde completamente a inclinação e se torna um enorme costão, com ilhas de vegetação por todos os lados. Os 30 primeiros metros da sétima enfiada são feitos neste costão, sendo os 25 metros finais, praticamente uma caminhada em meio à vegetação, para atingir a P7, já ao lado da crista do cume, estabelecendo a útlima parada da via exatamente ao meio dia. Confesso que não conheço a trilha para o cume, mas acredito ser possível sair pela crista e descer por trilha, pois parece algo bem simples, do ponto em que paramos. Como havíamos deixado equipamentos ao longo da via, fazer esta exploração não foi uma opção, já que teríamos que descer para recolher o que foi sendo deixado.

Pedro Bugim e Laura Petroni ao final da conquista da "No, Woman, No Cry" (D3 4° VI A1 E2 - 405m)
Pedro Bugim e Laura Petroni ao final da conquista da "No, Woman, No Cry" (D3 4° VI A1 E2 - 405m)

Como estávamos com apenas uma corda de 60m, tivemos que fazer nada mais, nada menos que 14 lances de rapel, o que tornou a descida longa e trabalhosa, mas não muito demorada. Às 14h estávamos ambos na base, saboreando uma cerveja geladinha que eu havia levado em um cooler com gelo e deixado ali, antes de começar a investida!


O ponto alto do dia, além da conquista em si, foi que, ao retornar para o carro, nos deparamos com o bezerro que estava aparentemente nas últimas, de pé, com uma boa aparência e sem qualquer sinal de urubus por perto! Sinistro!

Linha das vias na Pedra da Sebastiana
Linha das vias na Pedra da Sebastiana

Apesar de não ser fã de colocar nomes de via em outros idiomas, decidimos apelidar a via de "No, Woman, No Cry", por conta do episódio descrito, além de ser uma homenagem a uma música fantástica. Sua graduação ficou definida em D3 4° VI A1 E2 - 405m, tornando-se mais uma fantástica opção em uma região repleta de vias incríveis! As proteções intermediárias são em chapeletas em aço carbono, com as paradas duplas em chapas PinGo em aço inox 304. Há duplicação a cada 30 metros, permitindo o rapel com uma única corda de 60m.


Agradecimentos à Laurinha, que, como sempre, foi uma parceira sensacional, com muita garra, determinação e superação.


Croqui da via "No, Woman, No Cry" (D3 4° VI A1 E2 - 405m)
Croqui da via "No, Woman, No Cry" (D3 4° VI A1 E2 - 405m)


107 visualizações1 comentário

Posts recentes

Ver tudo